Arquivo do mês: outubro 2013

Posso afirmar que Nova York é a capital mundial da liberdade de expressão. Do não à censura de livros, filmes, biografias, artes em geral. Afirmo isso por que nela vivi. Não como turista de muitas viagens. Não como imigrante dando duro, mas, ausente do cotidiano social, cultural. Circulei. Conheci. Penetrei nos seus bastidores. Agreguei à cidade. Contribui para a sua magia e alegria*.

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Este RH é o segundo sobre Censura. Motivado pelo comportamento decepcionante de “lutadores” contra a censura na ditadura militar. Mas, no outono da vida, ao saírem do armário ideológico de baixa consciência política, cruzaram a linha da decência. E o caráter falso brilhante apareceu.

Netos, filhos, afilhados, do totalitarismo de Esquerda e de Direita. Velhos de idade e ideias entrarão na história não pelo que escreveram, compuseram, cantaram. Mas, pelo que declaram, defendem: a censura de biografia, de livros. Avalizam a impunidade. E por tabela, tipos de censura: sexual, religiosa…

Para completar este RH, por favor, leia Censura I sobre o livro Doutor Jivago de Boris Pasternak. Conto o que vivi na poderosa URSS. Onde a biografia chapa branca era a regra.  Neste, vou limitar-me ao paparazzo Ron Galella perseguindo, infernizando, a vida da primeira dama dos EE. UU. A querida e sofrida Jacqueline Kennedy.

Celebridade: È a plus-valia da fama. No Brasil não temos celebridades. Há famosos. Badalados. Paparicados. Para ser celebridade é preciso magia. Brilho excepcional. Destacar-se no que faz para si e para outros. Celebridade não é só de TV, cinema, música.

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Pela dezena de livros e filmes biográficos muitos foram elevados ao pedestal. Cleópatra. Jesus. Maomé. Beethoven. Maria Antonieta. Napoleão. Bismarck. Oscar Wilde. Freud. Al Capone. Hitler. Stálin. Einstein. Picasso. Dali. Chanel. Greta Garbo. Carmen Miranda. Dior. Evita. Grace Kelly. Princesa Diane. Che Guevara. Michael Jackson…

A indústria do cinema precisava promover seu produto, artistas, diretores. Bons em propaganda os americanos criaram “astros e estrelas” de Hollywood. O glamour de loiras e morenas. Galãs. Mocinhos. Bandidos. Heróis. Mas, nem todo “astro ou estrela” é celebridade

Paparazzo*: Fotógrafos corriam atrás de Charlie Chaplin, Jean Gabin, Brigite Bardot, Alain Delon, Ali Khan, Porfírio Rubirosa, Marylin Monroe. No filme La Dolce Vita Federico Fellini transformou o fotógrafo de revistas de cinema, curiosidades, fofocas, em profissional famoso.

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Marcelo Mastroianni e Anita Ekberg. O dedo de Mick Jagger. Depois de brigar e fugir Woody Allen fez a paz com paparazzi europeus. Recentemente, o ator Alec Baldwin partiu pra cima de fotógrafo.

E assim nasceu o paparazzo com máquinas penduradas no pescoço, na cintura. Jornais pagavam bem por fotos “inéditas” de famosos. Ter uma foto em Vanity Fair, Vogue, Life, Time, Le Monde, The New York Times, The Guardian, era carimbo de sucesso.

Carnaval no Waldorf Astoria:

waldorf2No Grand Ball Room do mais famoso hotel do mundo acontecia homenagem a presidentes. Jantar de magnatas. Celebrações. Na Nova York em crise, de conflitos raciais, havia dois eventos de destaque nas colunas sociais. No Waldorf Astoria: o Réveillon com a orquestra de Guy Lombardi e o Baile de Debutantes.

Graças ao cinema e a TV Carmen Miranda estava no imaginário norte-americano. O Brasil acabara de conquistar a Copa do Mundo no México. A bossa-nova passava por um revival depois do show no Carnegie Hall. O latin beat surgia forte na música, nas discotecas.

Nessa atmosfera de ritmos, etnias culturais, com muita determinação, mas, com concorrência desleal (adivinha de quem?). De brasileiros. Emplaquei o Brazilian Carnival não como um baile para brasileiros saudosos. Aliás, poucos em Nova York.

Mas, como o terceiro happening anual do celebrado hotel. Anos depois com o fim do Baile das Debutantes. A Festa de Ano Novo e o Brazilian Carnival foram os eventos mais famosos. E pela organização, originalidade, sucesso, mais um hapenning na agenda da sensacional Nova York. Por quinze anos consecutivos. E teria continuado por mais quinze  se vírus ideológico não me fizesse voltar ao Brasil.

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1. O Baile de Debutantes. 2. O Reveillon com Guy Lombardi. O Brazilian Carnival. Os gringos nunca tinham visto baile com mulheres bonitas, pernas de fora, dançando em cima de mesas. 3. Adriana Krambeck, Miss Michigan/USA e Beth Carvalho no Baile da Democracia. O Brazilian Carnival era temático. Todo ano dedicado à alguma causa ou data nacional: Baile do Café. Da Amazônia….

Ron Galella: Paparazzo dorme e acorda pensando na foto original de famoso. Em Celebrity Nova York já estava à frente de Paris e Roma que reinaram no pós-guerra e na década de sessenta. O paparazzo Ron Galella, procurava eventos, “coisas”, pessoas, para Aquela foto.

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1. Com um soco Marlon Brando- O Poderoso Chefão- tirou cinco dentes e quebrou o maxilar de Galella que o processou em U$ 40 mil dólares. Ganhou. ” Apenas para pagar a cirurgia e o implante. O dinheiro não importa. A questão é não censurar o nosso direito profissional de fotografar celebridades, pessoas públicas”. De gozação ou com medo do repique Galella se aproximava de Marlon Brando com capacete de metal. 2. Um de seus álbuns. 3. Amigos de Jackie distribuíram cartaz com a frase: quebre a câmera dele. 4. Galella depois dos 80, continua clicando, clicando.

Ele foi à Rua 46. Ao Brazilian Promotion Center para credenciamento. O convidei para o Carnaval. Assim como a diplomata e a doença mudaram a minha vida em Moscou. Em New York conheci e aprendi com figuras fantásticas. Fomos ao restaurante onde o mafioso Joe Gallo foi assassinado. Galella levou-me a um coquetel onde estava Al Pacino, astro do Poderoso Chefão. Muitos momentos Bem Nova York. O mais elaborado e mais perigoso- pelo menos para mim- foi ter-lhe permitido fotografar Jacqueline Keneddy de meu apartamento.

A partir da obsessão de ser o paparazzo exclusivo de Jacqueline Keneddy Ron Galella viveu, comeu, dormiu, caminhou , correu, teve máquinas quebradas. Foi processado. (várias vezes).

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1/2. Jackie O, como passou a ser chamada ao casar-se com o feioso, baixinho, magnata Aristóteles Onassis, era a mulher mais fotografada do planeta. Na companhia de Onassis o serviço de segurança era total. Mas, após o divórcio Jacqueline ficou vulnerável. Note a cara amarrada de Onassis. 3. Galella na cola de Jackie. 4. E o Rei dos Paparazzi com a foto que ele mais gosta.

Delicada por formação. Viúva do presidente John Keneddy. Ela sentiu-se mais frágil ainda com as críticas e fofocas em torno do casamento e da separação com Onassis. Nesse vácuo Galella entrou e passou a persegui-la. Dia e noite. Na cidade das celebridades ao ficar próximo e fotografar uma celebridade ele também passou a ser celebridade os paparazzi do mundo. Para a mídia que vive de celebridades. E eu também gostei de tê-lo conhecido. Em Nova York é assim: ou fica IN. Ou fica OUT.

Le Cirque: reinou como restaurante de celebridades. Do outro lado da rua em frente ao meu apartamento na Rua 65 esquina com a Park Avenue. Da minha janela-terceiro andar-via as limo chegarem com Ronald Reagan, Gromiko, Kissinger, Rockefellers, Keneddys, VIP internacionais, “astros e estrelas”.

Galella recebia inside info sobre os passos e a agenda de Jackie. Comi a isca. Entrei na dele. “Coisa rápida, tranquila, estarei fotografando de longe”. E foi assim que desde as 3 da tarde fez da sala do meu apê sua central de operação. Várias câmeras, binóculos, dois “canhões” com tripé, caixas de filme.

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1. O Le Cirque em frente ao “meu prédio” na Rua 65  2. Galella na butuca. Era segundos entre sair da limo e entrar no restaurante. 3. Para felicidade de Galella Jackie parou. Conversou com amigas.

Jacqueline Keneddy, esperada para jantar no Le Cirque ás 20 horas. Ás 19 começou o movimento lá embaixo. Agentes do Serviço Secreto. Policiais da cidade. Celebridades criam aglomerações. Congestionam o trânsito. Galella eufórico. Na excitação do momento comecei a ficar intranquilo.

Ela chegou. Era segundos entre sair da limusine e entrar no restaurante. Mas, para felicidade de Galella e desgraça minha Jackie parou. Ficou conversando na calçada com amigas. O apê no escuro. E Galella clicando, clicando, clicando. Sem flash. Ele contava com a claridade das lâmpadas da Rua e dos holofotes do restaurante. Mas, no orgasmo ninguém se contém. Ele enfiou a cabeça pela janela, deitando-se, esticou mais ainda os canhões. Foi visto.

imagesCA5QYUCCEle podia fotografar. Sem censura. Sem perseguição. A liberdade de exercer a sua profissão estava garantida por lei. Mas, ele não havia contado tudo. Respondia a processo limitando a 100 metros sua distância da Ex-Primeira Dama dos Estados Unidos. Da minha janela à calçada do Le Cirque ela havia atravessado a linha entre o publico e o privado. Da lei ao crime.

Batidas na porta. Câmeras abertas. Filmes confiscados. Sem, contudo, nenhum sopapo em  Galella. Papparazo famoso. Ele fazia o seu trabalho: fotografar celebridades na cidade das celebridades. Avisaram eu poderia ser processado como coadjuvante.

Sobrou para mim. Bronca da Síndica- que já tinha rixa comigo- pelas festas, sobe e desce de mulheres. Reunião com multa da Administração da towhouse, ao lado da casa onde viveu o presidente Franklin Roosevelt.  Mesmo proprietário eu estava sujeito a ações de despejo. Conselho: Em Nova York evite comprar imóvel em Cooperativa. Imagem: Galella, tremendo gozador, com a trena medindo a distância entre ele e Jacqueline Keneddy Onassis.

Resumo da história: Se fosse da índole e do caráter de Jacqueline Keneddy; se ela tivesse sido educada com o “você sabe com quem está falando?” em mostrar “a carteirinha do poder”; com amizades e conexões que tinha; podia mandar arrebentar ou “sumir” com Ron Galella. Poderosos onde a impunidade é regra fazem isso.

Assim como o amarelo faz parte de nossa bandeira, a censura, perseguição, fazem parte de qualquer regime totalitário. Da Esquerda, Direita, Religioso. Fui testemunha disso em Moscou. Vivi a liberdade de expressão. De noticiar. Sou testemunha da não censura de biografias em Nova York.

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Biografias fazem parte da Inteligência. Comportamento. Cultura. Escrever, contar, expor, a vida de pessoa pública, ensina e ajuda o cidadão a crescer e ter sucesso com decência. Biografia educa. É fundamental para o povo. O regime totalitário não incentiva biografia. Pois o indivíduo não pode ser mais importante que o Partido único, o Estado, o Chefe, o Mito, o Divino.   

p1_JFK-Dallas_art_ledeSou testemunha de como a primeira dama da maior potencia do planeta respeitou o direito de imprensa petreamente cravado na Constituição de seu país. Sabia-se celebridade, pessoa “pública”.

Portanto, podia ser fotografada, biografada. Sou testemunha da covardia, do patrulhamento ideológico, da censura, que “famosos intocáveis” e globais fazem no Brasil. O Cara pode ser famoso e safado. 171. Badalado e canalha. Hitler famoso, levou o mundo à guerra.

Mas, afinal, para que biografia, memória nacional, quando o presidente do país orgulha-se de nunca ter lido um livro e não precisar de diploma universitário para governar? Para que biografias se 75% dos brasileiros nunca foram a uma biblioteca e a ministra responsável pela Cultura embalada por hormônios divinos conclama que Lula é Deus!!!!? Nesse ambiente de democracia totalitária “famosos” suplentes de celebridades, velhos de idade e ideias, sentem-se à vontade para encher o saco com censura de biografia! E conseguem. Com o silêncio de pilantras e maria-vai-com-as-outras que mandam no país.

Bruxas e Cavaleiros do Apocalipse Cultural atacam a liberdade de expressão.

apocalipseSão contra o direito do povo saber o que fazem e fizeram políticos, governantes, artistas, padres, pastores. O que deveria fazer a ministra da Cultura? Entrar na discussão. Promover campanha pela publicação de biografias. O Brasil é carente nesse gênero literário que se extingue pela censura, pela covardia de Juízes, pela manipulação midiática.

Temos leis que protegem o biografado de infâmia, difamação, do crossing the line. A diferença entre nós e os americanos está no cumprimento e no comprimento da lei. Nos EE.UU celebridades são detidas, algemadas, presas, por delitos no trânsito, sonegação de imposto, embriaguez, etc. A desgraça nacional- entre outras- é a lei do mais famoso. Mais “carismático”. É o não cumprimento da lei. É a impunidade.

E onde a impunidade lidera a liberdade de expressão-pilar do Estado de Direito- está comprometida. Corruptos adoram a ousadia dos “famosos” em proibir bio-grafia. Vida + escrita. De pessoa que deve sua fama, sua riqueza, ao público. Aí olhamos para os “famosos”. Olhamos para os corruptos. E ficamos sem saber quem é mais canalha.

Trilha sonora: Carey Mulligan singing New York, New York in Shame [FULL SCENE]

——————————————————————————-*O Dia do Brasil, criado em 1985, numa explosão de liberdade de expressão e de vitória contra a censura em nosso país, não é somente o maior festival brasileiro no mundo. É o maior evento no centro de Nova York. *PAPARAZZO se refere ao mosquito que fica em volta atazanando a pessoa.  Sinônimo do fotógrafo cri-cri que persegue celebridade para tirar fotos, de preferência, indiscretas.

Para melhor leitura Zoom 125.

Encaminhe. Divulgue. www.oreporternahistoria.com.br. Escreve que eu publico. Notopi: noticia com opinião. www.oreporternahistoria@gmail.com

 

 

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Dez “famosos” criaram factoide nacional: censurar biografia. Já fala-se pouco de espionagem. Da escapulida da presidente em moto. A Veja não repicou capa do casamento de Daniela Mercury. Puríssima em vestido branco. Declarando amor eterno à sua Malu mulher. Rosemary, a terceira mulher mais influente do Brasil, não é mais manchete. Os Mensaleiros saíram de cena. E de pena.

Passeatas; greves; professores; a reposição do rio S. Francisco; as obra$ da Copa do Mundo: são “notícias velhas”. Uma patota em revigorado Clube do Bolinha ocupa espaço nobre em jornais. Foi capa da Veja. E como nos velhos tempos, aos quais diziam combater, querem censurar biografias. No Brasil da década perdida isso é noticia “nova”.

Seria injusto. Covardia. Ver os cães ladrarem enquanto a caravana da nova Inquisição made in Brazil passa cantando, tocando, dançando. Como se censura, patrulhamento ideológico, perseguição, calúnia, não tivessem acontecido e mexido comigo por toda a minha vida. Ou simplesmente fazer como ensinou a ministra da Cultura: Senta e Relaxa.

 75% dos brasileiros jamais pisaram em uma biblioteca

Para que discutir livro e biografia quando o dono da Casa Grande, da Senzala, o Exemplo Maior, o Chefe da Nação, diz, com orgulho: Nunca li um livro. “Não preciso de diploma universitário pra governar o Brasil”.

“O índice de analfabetismo funcional entre universitários brasileiros chega a 38%”. De 2001 a 2011, a porcentagem de universitários plenamente alfabetizados caiu 14 pontos – de 76%, em 2001, para 62%, em 2011. (Instituto Paulo Montenegro vinculado ao Ibope).

Há mais dados a provar que netos, filhos, afilhados, do totalitarismo da Esquerda e Direita, no outono da vida, buscam banana em bananeira que não dá cacho. È desgraça nacional 90% da população não dar a mínima para essa discussão velha, rançosa. E atualíssima. Importantíssima. Salto os “embargos infringentes” na censura. O legalês. A processualística ao infinito. Neste “julgamento” da liberdade de expressão. Vida pública e privada. Biografia autorizada. E penso contribuir com duas histórias:

1. Boris Pasternak, autor do livro Doutor Jivago. (Meu filme de cabeceira). 2. E o Paparazzo Ron Galella perseguindo e infernizando Jaqueline Keneddy. Fotografando de minha janela a querida e sofrida primeira dama dos Estados Unidos. Moscou e Nova York. Censura e liberdade.

Neste espaço eu não invento. Não aumento. Dou depoimento. Não apenas de testemunha ocular. Mas, de histórias vividas. Sentidas. Doces e amargas.

A diplomata.

admin-ajax.php.jpgCarnaval em MoscouNão havia censura explícita. Passeávamos, namorávamos, por Moscou. Nas férias, viajávamos ao exterior. Muitos formaram família brasileiro-russa. O confinamento era de vida universitária. O inverno, idioma, os estudos, dificultavam maior conhecimento da realidade soviética. Eu tive sorte. Com uma mulher e uma doença. Com amor e dor. Saí do “gueto”.

Não foi fácil levar o cocar a Moscou ganho de cacique em Jarudore, MT. Plumas lindas. Na mala quebraria as penas. Viajei com ele na cabeça no avião do Rio/Paris/Moscou. E todo mundo olhando pra mim. (Imagem: do primeiro carnaval na URSS. Embrião dos famosos carnavais no Waldorf Astoria).

No primeiro carnaval brasileiro em Moscou a diplomata gostou de mim. Até hoje desconfio se foi de mim ou do cocar. As plumas naturais brilhavam o vermelho, azul, amarelo. Lindo contraste com o branco da neve. O cacique havia previsto: “cocar vai dar sorte pra bacuri grande”. O ornamento legítimo a hipnotizou. E entrei na “viagem” dela por dois anos. Mudando a minha vida para sempre. Conheci pessoas e lugares que o universitário jamais conheceria. Por exemplo: ir à igreja não era proibido. Mas, para engajado na revolução proletária, para membro do Partido, era mal visto. Mas, ela, diplomata, foi fazer uma doação. E lá estava eu frente a frente com o Patriarca. O Papa da Igreja Ortodoxa da Grande Rússia.

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Com ela descobri Boris Pasternak. Vimos o filme Doutor Jivago em Estocolmo. Um filme de amor durante a revolução. Mas, o livro foi censurado na URSS. Pasternak banido no ostracismo. Já contei como anos depois na esquina da Quinta Avenida com a “minha Rua” dei um dobri dien Lara! Ela virou-se. A fisguei na surpresa. Ela riu. Fazia frio. Julie Christie, a minha adorável Lara, deslumbrante com um gorro branco e capa londrina. Convidei. Ela aceitou. Tomamos cafezinho na Rua 46.

Aula de erotismo em Yasnaya Polyana 

A fazenda de Leon Tolstói estava na agenda das excursões culturais que a universidade promovia. Muitos lá foram. Mas, eu voltei com liberdade e facilidades diplomáticas. Três dias “sentindo, vendo, ouvindo” Ana Karenina, Guerra e Paz. Nos lugares onde esses dois clássicos da humanidade foram escritos.

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1. Tolstói em Yasnaia Polyana. 2. O filme. 3. Maiakovski, Pasternak, com mais censurados.

No filme The Last Station, sobre os últimos dias de Tolstói, vi o coreto onde numa noite branca transei com a diplomata. A minha professora de erotismo sentindo-se “Anna Karenina” vestia meia- liga, espartilho, calcinha rendada. Acessórios sexuais que eu nunca tinha visto ou cheirado. Dela, o primeiro livro do Marques de Sade. Sexo oral com tremor, arrepios. Não sabia que uma mulher ao gozar pode urinar. O primeiro ménage à trois. Professora de etiqueta: por que dois garfos, duas facas, quatro copos? E de boas maneiras ao vestir, comer, falar. Ela ensinou-me a ser menos grosseiro. E mais “educado”.

Com ela soube dos poetas, escritores, pintores, sufocados, proibidos de criar. Ou escrever, compor, pintar, só aquilo que o Estado queria. O Partido ordenava. O Chefe benzia. Esmagados. Sem liberdade de expressão muitos se suicidaram (Essênin, Maiakovski, Ossip, Anna Akmatova, Kurlov…). Fomos ao enterro de Pasternak. Cercado de mistério e de pessoas com medo dos fotógrafos da KGB.

“Quando as testemunhas silenciam, nascem as lendas”.

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1. Estudantes brasileiros na calçada da embaixada. 2. Ehrenburg. 3. Seu livro mais famoso.

A embaixada do Brasil na Rua Guertzena. Em frente, a Casa do Escritor. Seu presidente Ilya Ehrenburg. Prêmio Stálin da Paz. Autor de A Epopéia Russa, O Degelo. Ficou na marca do pênalti por críticas à divinização de Stálin. Recuperado por Khruschev. Eu ia à biblioteca. Conversava com Ehrenburg.

img029O embaixador Henrique Rodrigues Valle, sempre generoso, mato-grossense, como eu, aceitou as minhas explicações, e fez o convite. Foi assim que o consagrado escritor almoçou conosco em conversa descontraída. Falou da divinização de Stálin e da importância das biografias. Imagem: Uma partida de sinuca com o embaixador.

“O biografado conta a história de seu tempo. E sem testemunha do momento, do tempo, os mitos florescem, passam a ser perigosos e destrutivos”. Escritores, poetas, não frequentavam embaixadas sem permissão do Partido. Ilya Ehrenburg vivia drama pessoal, angustiante.  Os pro Stálin o condenavam pelas criticas ao Divino. Os contra Stalin o criticavam por ter assumido a presidência da Casa do Escritor.

Nas belas voltas que o mundo dá ao meu redor anos depois eis que a minha primeira girl friend americana foi Paulette Ehrenburg. Da família de Ylya Ehrenburg que não era russo. Mas, ucraniano. O SNI não autorizou a renovação do meu contrato com a Delegacia do Tesouro Brasileiro. Primeiro e único emprego em Nova York. Sem lenço e sem documento. Como cantou o IV Novo Censor da República Federativa do Brasil. Eu fui à luta. Paulette introduziu-me ao American way of life. Vivíamos na Rua 10 East Village. No miolo hippie. Psicodélico. Ela foi o degelo para os meus “quinze minutos de fama” em Nova York.

A tuberculose.

Fome crônica. Magricelo. Fumante. Cáries tampadas com algodão. Líder estudantil “profissional” querendo terminar uma faculdade. Cheguei a Moscou pele e osso dentro de terno da Ducal (novidade poliéster). Na faculdade preparatória, fonética e gramática russa. Tudo beleza. Mas, o impulso ideológico falou mais alto. Ao invés de descansar. Voltei ao Brasil com malas de souvenires, propaganda, cartazes. Sentindo-me o Emissário, Apóstolo. Fui aclamado. Falei a multidões. Palestras. Entrevistas.

Em Cuiabá, homenageado pela inteligentzia da terra de Rondon. Almocei com o governador. Fui para a boêmia com o amigo e poeta Silva Freire. Sem descanso, voltei a Moscou carne e osso. No check up, antes das aulas, a camarada doutora detectou os nódulos (caroços) no pescoço.

Imediatamente, biópsia no hospital de Oncologia ao lado da chácara de Stálin. Não era câncer. Tuberculose linfática. Ou seja, má alimentação. Noites mal dormidas. Seis meses no Pavilhão de Tuberculosos em Moscou. Doses cavalares de antibiótico. Miopía. Queda de cabelo. Cobaia de Broncoscopia recém-introduzida na Rússia. Quatros meses em sanatório às margens do rio Volga. Onde devorei biografias, clássicos da literatura. Fiz amizade com kristiani (camponeses).

No PT conheci a Ruskáia duchá.

A alma russa. Tranquila. Rebelde. Alegre. Triste.

No PT: pavilhão de tuberculosos, estrangeiro, eu podia sair com frequência. Trazia cigarro e vodka (proibidos). Da namorada cubana ganhava kalbasá (mortadela). Chocolate. Frutas. Dividia. Passei a líder do andar. A turma da pesada dava cobertura para as minhas fornicações com internas do Pavilhão Feminino. Pouca penetração. Muitas punhetas ideologicamente intensas, caudalosas. Dessa experiência única. Quantos artigos! Quantas biografias! Tentei, mas não consegui manter um diário.

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1.Ter conhecido Ríjiki (centro), vivido com os ” discriminados, censurados”, fez-me conhecer um pouco da Rússkaia duchá. 2. No bosque do sanatório. 3. A enfermeira Tatiana.

Magnifica experiência de vida ter conhecido Rijiki (Sarará). Sardas no rosto. Cabelo vermelho. Dois metros de altura. Tuberculose galopante contraída em prisão da Sibéria. Engenheiro. Ele não se curvara aos Comissários da construção de pontes. Fez críticas abertas. Taxado de anti-Partido. Cinco anos preso. Mesmo na amargura e tuberculose terminal sua alma russa vibrava de paixão. Rijiki declamava Puskin, Yessenin, Maiakovski. Tocava bandolim.

Saudades de Irina. Bábuska maiá daragáia.

5 - Digitalizar0009A zeladora Irina, minha querida bábuska. Sempre com um pouco mais de sopa. Ovo cozido. Chá. Ela sabia dos amasso com Natasha dentro do almoxarifado. Fingia não ver. A solidariedade na dificuldade, no sofrimento, é uma marca do povo russo. Vem das guerras. Do Obscurantismo. Totalitarismo. Da Censura.

Das portas abertas pela diplomacia. Das portas fechadas pela tuberculose. Vivi o que nenhum estudante, convidado especial do governo ou do partido, viveu na URSS. Sem subversão. Sem ofender meu anfitrião. O bondoso povo russo. Saí da regra. Vivi a exceção. Estava tudo ali. E não vi. Não captei.

A teoria marxista fossilizada.

Marx ensinou que haviam compreendido o mundo. Era hora de mudar o mundo. E mudança exige movimento, avanço, melhora constante.  Porém, Marx não previu pedra no caminho. Aliás, várias pedras rochosas. O culto à personalidade. A trituração de sonhos. O esmagamento de iniciativas. A castração da criatividade. A burocracia. Corrupção. Fossilizaram a teoria econômica marxista. E por cima do Estado-babá, inchado, policialesco, o Poderoso Chefão, o Mito, o Divino.

Por essas e outras sinto vontade de vomitar quando a ministra da Cultura do meu país proclama que Lula é Deus. E, ela não está brincando! Ou está tirando sarro do Chefe, curtindo com a cara do Cara? Já ouvi que Hugo Chávez está fazendo “milagres” curando gente na Venezuela! Se Marta Suplicy, da elite paulista, títulos universitários, responsável pela Cultura do Brasil, pensa e diz que Lula é Deus, imagina o que não está sendo gerado abaixo dela. Assim nasceram a Inquisição, Taleban, Al Qaeda, Gulak, Partido Único, Rainha Mãe dos Pobres, Rei Pai dos Ricos, Ditadores, Sanguinários…

O verde faz parte da nossa bandeira.

Censura e patrulhamento ideológico são carne e unha de regime totalitário. Seja em nome de Jesus. Alá. Stálin. Fidel. Hugo Chávez. Lula. Censura é como coceira. É só começar. Uma exceção e descambamos para o Obscurantismo. Inquisição. Atraso. A Censura destruiu sonhos comunistas. E mesmo assim, com todos os exemplos de ontem e de hoje, no Brasil, os novos cavaleiros do Apocalipse Cultural querem censura em biografias, livros, filmes. Eles não sabiam o que acontecia na catedral de santos ideológicos? Ou fingiam não saber para navegar nas ondas do momento. Ficar famoso. Faturar?

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A lei dá garantias a biógrafo e biografado. Calunia e difamação são delitos. È fazer cumprir a lei. Todavia, assunto de vital importância, a polêmica das biografias, está engavetada no Supremo Tribunal Federal. Previsão de decisão: 2014? É preciso elevar o nível político da população. E para isso precisamos da TV, a principal educadora do país. Das Rádios, Blogs. Dos compositores, cantores (as), atores, atrizes, de todos os que ensinam e formam opinião. Precisamos Aprender. Ver. Enxergar. Para não atravessar a linha entre o público e o privado. Entre censura e liberdade de expressão. Sem misturar liberdade com libertinagem, depredação, esculhambação, anarquia.

A turma do censurar biografia revela seu caráter

Aos poucos, cada um saindo do “armário” ideológico e político. Revelando surpresas ao grande público. Procure Saber quem foi exilado pelo governo ou viveu auto-exílio idílico-etílico-musical? Era IN cabelo ao vento, sandália hippie, barba, baseado, canções e versos de protesto, para credenciar “líderes” de geração. Da esquerda. Mesmo que da esquerda festiva. Ou do esquerdismo, “doença infantil do comunismo”. O manto sagrado do “é proibido proibir” valeu sucesso, riqueza, fama.

Muita gente continua gigolando protestos e ações que não fizeram. Luta que não travaram. Muitos atravessaram a linha da revolução para a corrupção com a maior tranquilidade. Na maior face of wood (no inglês do camarada Jair Santana). A delinquência ideológica está atuante e faturando. Que tal uma Comissão da Inverdade para sabermos se esses velhos famosos querem ser lembrados pelo que cantaram, escreveram, ou pelo que fazem agora?

imagesCA65282QTem hora que penso em arrear meu Rocinante, acordar Sancho, e começar campanha para não comprarem CD, DVD, LIVRO, SONG BOOK, INGRESSOS DE SHOWS, FILMES, CAMISETAS, BRINDES,

NADA, PRODUZIDO PELOS QUE QUEREM CENSURAR BIOGRAFIAS, LIVROS…

 

untitled.pngron e jackLiberdade de expressão é aroeira. É pilar central do Estado de Direito. Patrimônio cultural é obra do povo como um todo. Temos o direito de conhecer o presente e o passado de nossos artistas, políticos, governantes. Neste meu Brasil que insiste em não ter memória. Diviniza demônios. Elege espertalhões. Onde Presidente escarra no Saber e no Conhecimento. Como estaria a minha pequena bagagem literária sem livros e filmes biográficos?

Na próxima semana: Como o paparazzo e a primeira dama da maior potência do planeta, cada um a seu modo, respeitaram a liberdade de expressão.

Trilha sonora: Elina Karokhina (balalaika) ‘Dr Zhivago’

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Para melhor leitura Zoom 125.