Há encontros agendados. Outros independem de nós, simplesmente acontecem. Tenho dificuldade com nomes. Mas retenho rostos, sorrisos, gestos, jeito de falar e caminhar. Em Moscou, na babel universitária, nós nos conhecíamos e chamávamos por país. Hei Brasileno, Argentino, Angola, Nepal, Bolíviano, Cubano, Argélia, Chipre. Só os mais chegados tinham nomes. Em Nova York fui ganhando identidade. Jô, Jay, Míster Alves, Jota Alves e até Mister Brasil. Mas quando eu começava a estreitar laços, aprofundar relações, eis a partida. Por causa desse desgarramento nada me dá mais satisfação e alegria que o reencontro. E eles se sucedem como agendados por fadas, magos e duendes. Deixo qualquer coisa para reencontrar, falar, ressuscitar saudades e momentos. E foi exatamente isso que aconteceu comigo e Jorge Goulart, o Rei do Rádio. Muito antes de conhecê-lo, pessoalmente, em Moscou, eu já o conhecia pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Quem da minha geração não pulou carnaval com As Touradas de Madrid? Ele gravou os mais famosos sambas-exaltação. Liderou paradas de sucesso e venda de discos. One man show!

Amigo de Prestes e de Marighela, Jorge Goulart levou a música popular brasileira à União Soviética onde nos encontramos pela primeira vez. Anos depois a magia do reencontro no Rio (foto acima). E a tri magia do reencontro em Nova York. Ele rindo dizia: “Eu, pela primeira vez na matriz, jantando no Rockfeller Center. Só o samba e o carnaval conseguem isso tavarish Jota”.

Para o maior baile de carnaval brasileiro no exterior ser realmente famoso era preciso autenticidade na música, canto, fantasias, decoração, ambiente. No Rio de Janeiro levaram-me ao show do Hotel Nacional em São Conrado. E lá estava ele. Jorge Goulart e sua Nora Ney, amada-amante, companheira inseparável. E lá estava também Caribé da Rocha e os Tjurs. Não foi fácil. Mas encurtando a história, 50 componentes do show embarcaram para Nova York.  Foi o mais sensacional Carnaval do Brasil no mundialmente famoso Waldorf Astoria hotel dos que organizei (16 anos consecutivos). Eu estava com a corda toda.  Era como se Midas tivesse baixado na Rua 46. Tudo que eu tocava dava certo.  Amilcar Moraes- empresário de jornais, revistas, discos, produtos brasileiros, conseguiu uma bela reportagem na revista Manchete e na Ela /Ela com a maestria do editor Lincoln Martins- ate hoje insiste que o sucesso foi resultado do “trabalho” que eu recebi no terreiro de Vovó Fifina.  Amilcar me fez levar fotos do Walfdorf Astoria, nome de brasileiros invejosos que tentavam sabotar o evento e umas roupas minhas.  Puseram-me venda nos olhos.  Ate hoje não sei onde estive.

Ann Bond. centro, âncora da NBCTVNEWS, no júri do concurso de fantasias. Ela gostou tanto do que viu e sentiu que subiu ao palco para nos ajudar com as apresentações. De pé, ao meu lado, Paulo Nascimento, jornalista contratado pela ONU, em Nova York.

Jorge Goulart, um craque em shows, levou para o Waldorf Astoria, naipe de pistão, trombone, sax alto e baixo, tuba, quadra de surdo, caixa, cuíca, repique de tamborins. Caribé da Rocha fez desfilar lindas modelos em lindas fantasias. Num passe de mágica conseguimos que Ann Bond, uma das mais consagradas âncora de noticiário horário nobre de Nova York NBC-TV-NEWS subisse ao palco como Mestre de Cerimônias do Carnaval do Brasil. Os camarotes lotados com gente famosa, o badalado VIP (very important people).  Maria Rosa a quem promovemos como a mulata mais bonita do Brasil fisgou o coração do embaixador de Angola junto às Nações Unidas, tornando-se sua esposa. Nessa noite conheci Hesperia Grossi, aeromoça da Varig internacional, pernambucana espigada e alegre que me fez o pai de Jota Jr. e Marcio Alves. Atualmente um segura o bisturi e o outro a Bíblia. Mesmo distante deles, sinto-me protegido no corpo e na alma. Dos Carnaval do Brasil foi o único que me rendeu 50 mil dólares limpinhos. Com os quais paguei a ultima prestação do apartamento na Rua 65, esquina com a famosa Park Avenue, a cem metros do Central Park e da Quinta Avenida.  Devo muito a Vovó Fifina e a São Jorge Goulart.

Na madrugada do último dia 20 de março dei um tempo na releitura de Jean Christophe, de Romain Rolland, e liguei a TV no SBT. Hermano Henning deu a noticia: Jorge Goulart, o Rei do Rádio, morreu. Passei a manhã na internet e nas páginas mais famosas. Nada sobre quem sempre alegre, solidário, idealista, encantou multidões e fez o Brasil cantar. RH