Trilha sonora: 12 Stenka Razine

Entrei. Sentei. Levei um susto. O cinto me envolveu. O General* ficou rindo. Em uma de minhas viagens a Nova York saímos eu e Carlos Wattimo para dar uma volta em seu carro novinho. Daqueles que já vinham com o cinto de segurança automático. Teimoso, descuidado, irresponsável, queira ou não, o cinto te prende no assento. Coisa da tecnologia USA. Berço do automóvel.

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No Brasil, a implantação do cinto de segurança foi/é um parto. Milhares de mortes no trânsito. Milhares de paraplégicos. Milhares de órfãos, viúvos, viúvas. Aposentados precoces sangrando mais ainda os cofres da nação. A cultura do atraso é abrangente.

Voltados para o fiofó do mundo. Embalados por delírio Terceiro mundista quando não há mais Segundo Mundo. Vivemos na rabeira das descobertas, inovações, alternativas. O que não é mais novidade nos países desenvolvidos chega aqui. E faz sucesso. Somos o maior e mais rentável palco do mundo para astros dinossáuricos da música pop. Praças e Ruas do país intransitáveis por ambulantes vendendo bugiganga há muito descartado. Porcarias made in China viram souvenir de luxo.

Um quarto de século depois o cinto de segurança faz parte da vida de quem dirige. De quem não dirige.

Era in fumar.

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Bogart e Rita-Gilda. Era bonito fumar. 

Nunca fui daqueles inveterado. Iniciei como os moleques de minha geração com Elmo, Continental, Astoria, Mistura Fina, sem filtro. Raquítico, com um histórico de vermes. Criança, eu comia terra de formigueiro lá no Coité, distrito garimpeiro de Poxoréu/MT. Era só tragar, ficava meio tonto. Fumavam ao meu redor. Eu também tinha que fumar. E por que não? Se os meus astros e estrelas  do cinema fumavam! Era bonito fumar. Humphrey Bogart, Rita Hayworth, John Wayne, Lana Turner, davam o exemplo de elegância. Conquista. Coragem. Imagina entrar num bordel sem cigarro na mão! Na escola. No futebol. Na Rádio. No Jornal. Era in fumar. Assim que magérrimo, mal alimentado, “estudante profissional” da agitação política, cheguei a Moscou com o bacilo da tuberculose.

O papiroska russo

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O Kremlin. O rio Moscou. Carteira de cigarros Pavlova. No hospital com tuberculose linfática. No centro, Vassili. Ele passou cinco anos preso na Sibéria onde contraiu tuberculose galopante. O hospital com huligani, ladrões, prostitutas, alcóolatras, foi a minha outra universidade. Com parasitas sociais conheci a outra Rússia. As narrativas de Vassili eram fantásticas.

Em Moscou, passei um ano fora da universidade em tratamento de tuberculose linfática com doses cavalares de antibiótico. E o cigarro, num rapaz que padecia de fome crônica, claro que fez mal. Daí a miopia e a calvície. Em contrapartida graças à saúde pública soviética, curado para sempre. No hospital e no sanatório não se fumava. Mas, ainda dei umas tragadas às escondidas. O cigarro russo horrível. Pabeda,  Pavlova, Sputnik, sem filtro. Cigarro comprido, mas só metade de fumo.  Ficava-se mastigando a outra metade do papiroska. Vendia-se mais carteira que maço a 30 kopeike.

Marlboro, a maravilha norte-americana.

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Tatiana, enfermeira, padruga. Depois do hospital, o sanatório às margens do rio Volga. O cowboy mata.

Foi em Helsinki, lavando pratos em restaurante, onde  descobri o maço vermelho e branco do cowboy. Cigarros Marlboro. Uma maravilha capitalista. Nas férias de verão, junho a agosto, eu ia ganhar alguns dólares na Finlândia, Suécia, Dinamarca. Catei batatas nos arredores de Londres. Passei momentos afrodisíacos com noviças de um monastério na Bavária. Como um camelô agente do imperialismo eu voltava do Ocidente com a mala cheia de cigarros, LP de Andy Willians, Frank Sinatra, calcinhas, batom, esmalte, e “perigosamente” exemplares do livro Doutor Jivago. O filme proibido na União Soviética eu assisti em Estocolmo. Entre a turma fazia o maior sucesso fumar Marlboro. Adorava colocar e tirar calcinhas de nylon nas minhas dievuski.

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Geraldine Chaplin com um gorro de inverno parecido com o de Julie Christie na Rua 46. O filme proibido na URSS. E Lara maiá daragaia forever.

Já contei neste espaço como anos depois na esquina da Quinta Avenida com a Rua 46 fiquei frente a frente com a inesquecível Lara. Era inverno. Julie Christie caminhava em direção aos teatros da Broadway com um gorro branco, lindo, e uma capa preta de corte londrino. Não resisti e fiz o que nunca faço: abordar uma mulher na Rua. Mandei em russo: dobri dien Lara. Surpresa, ela desajeitada, virou-se e riu. Dançou. Puxei conversa.  O território era meu.  A Rua brasileira de Nova York.  As voltas que o mundo dá.  Quem diria, em Moscou, que um dia eu convidaria para um cafezinho brasileiro a russa que levou Doutor Jivago (Omar Shariff)  à loucura. A bela e mortal loucura do amor.

O cigarro em Nova York

Voltei a fumar em Nova York. O cigarro ainda fazia parte do glamour da Big Apple. No boom das discotecas todo mundo fumava cigarro e outras coisas mais. Deixei o Marlboro. Passei para o Winston. Kent. Vice Roy. De volta ao Brasil desandei a fumar e a consumir doses industriais de destilado.img071

Revendo a foto reafirmo que eu era estúpido e não sabia. No palco, cercado de inflamáveis por todos os lados, de frente para o público, com cigarro na boca.

Sempre quis parar. Mas, a combinação cafezinho-cigarro-whisky- fazia parte do ambiente doméstico e político que eu vivia no governo de Mato Grosso. Em Cuiabá, sempre faltando energia elétrica, o comércio fechava mais cedo. Nos embalos noturnos na minha casa a Rua Alemanha sempre faltava cigarro. Por mais viciados poucos compram pacotes de cigarros. Sempre naquela “um dia vou parar, por isso compro só um maço por vez”.

As três, quatro, da madrugada, às vezes, comprava-se cigarro na Rodoviária. Ainda não havia as Conveniências nos postos de gasolina. Mas, havia a boate Bataclan para onde o motorista, ou taxista, iam com a missão de não voltar sem cigarro.  Putaria, álcool, outras cositas mais, sem cigarro não funcionava. Revirava-se tudo a procura do ultimo cigarro. E a luta continua. Com notícias positivas para o bem estar da saúde pública do Brasil.

Parei em 1990

Adolescente, fumei. Estudante universitário em Moscou, fumei pouco. E parei. Em Nova York, fumei. Em Mato Grosso fumei muito. Estando em Belo Horizonte fui levado por uma amiga a uma acunputurista canadense que prometia a cura do vicio. Um dia após as agulhadas desembarquei em Nova York. O antitabagismo gerava discussões. Os aviões deixaram duas filas de poltronas, no fundo, para o fumacê.  Na sequencia, em Nova York cortaram para sempre o cigarro nos aviões, trem, ônibus, táxi.

Mais e mais restaurantes reservavam pequenas áreas para fumantes. Eu vivia com uma fumante. Milhares desciam dos arranha céus para fumar nas amplas calçadas da Park e Sexta Avenidas. O cigarro deixou de aparecer na TV. Filmes com histórias de câncer por causa do cigarro se repetiam. Os fabricantes mudaram o marketing. O cigarro ainda dá muito lucro. O cigarro continua matando.

José Serra e o cigarro

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Número de fumantes diminui pela metade no Brasil

“O número de brasileiros que fuma regularmente está em queda. De acordo com uma pesquisa recente realizada pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca) em parceria com a Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos, a taxa de tabagismo no país foi reduzida em quase 50% nos últimos 25 anos. Segundo o levantamento, se o Brasil não tivesse implementado nenhuma ação de controle do tabaco, a prevalência (percentual de fumantes) em 2010 seria de 31%”.

Em menos de 25 anos, população tabagista passou de 31% para apenas 16,8%.

“Isso significa que aproximadamente uma em cada três pessoas, com 18 anos ou mais, seria fumante. Em 2010, a proporção de tabagistas no país foi estimada em 16,8%. Com base nesses números, calcula-se que pelo menos 420 mil mortes foi evitado nesse período. O sucesso na redução do consumo do tabaco se deve principalmente a algumas leis, que restringiram a propaganda e proibiram o fumo em locais fechados”.

De São Paulo para o mundo.

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“Estima-se que a lei Antifumo (nº 13.541/09) contribuiu para reduzir em 9% o número de fumantes”. O país já alcançou muitos avanços na luta contra o tabagismo, mas o número de casos novos relacionados ao fumo é preocupante. É preciso regulamentar definitivamente a lei dos ambientes 100% livres do tabaco e dar mais um grande passo em prol da saúde dos brasileiros”, diz o diretor-geral do INCA, Luiz Antonio Santini”.  (Do Mídia News /MT).

No Dia Mundial da Luta contra o Tabaco: Parabéns José Serra.

Serra 2No Brasil do esquecimento. Politicagem em tudo. Desinformação. Idiotice. Atraso. Malandragem eleitoral.  Esperteza “doutrinária”. Na década perdida, citar, elogiar, José Serra, significa despertar a ira das patrulhas que blindam todos os vícios imagináveis. Não sou do PSDB. Não sou do PT. Sou do Brasil.

Como o país precisa de mais suor dos que fazem e menos saliva dos que vivem engabelando a população parabenizo José Serra, no Dia Mundial da Luta Contra o Tabaco. Por sua luta tenaz, “antipática”, e vitoriosa contra o cigarro. Como ministro da Saúde do governo FHC. Como governador do estado e prefeito da cidade de São Paulo a sua obra alcançou o mundo.

No Brasil, obras e “coisas” úteis demoram a ser construídas. A obrigatoriedade do cinto de segurança foi/é uma luta constante. Não fumar em recintos fechados. Ver médicos e enfermeiras fumando. Não fumar em geral é/será uma luta constante. E a vitória dessa luta depende de mulheres independentes. E de homens públicos como José Serra.

 

untitled.pngIpanema disco*General é o apelido carinhoso que Benito Romero, líder da comunidade brasileira em Nova York, presidente da Casa do Brasil, deu a Carlos Wattimo.

O gaúcho servia ao Exército dos Estados Unidos. Nos dias de folga chegava na Rua 46 fardado, medalhas no peito, condecorado, boina. Era orgulho para todos nós. Benito avisava: “hoje tem baile lá no meu Apê” ( Rua 47, das pedras preciosas).

“Nosso General chegou. Não é qualquer comunidade aqui  em Nova York que tem um General”.

Carlos Wattimo ficou famoso também por abrir a discoteca Ipanema no coração da Broadway e com imenso sucesso a New York City disco em Ipanema. Rio.

Trilha sonora2: Lara’s Theme

 

 

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