Trilha sonora: Um a UM, Jackson do Pandeiro


No pôquer político-eleitoral pela prefeitura de São Paulo quem ficou com o Jackpot? Quem blefou? Quem saiu com um Royal Flash? Qual deles ainda tem um full de ases? Quem é o pato nesse jogo de titãs da política nacional?

Você pode não gostar do Lula, mas ele foi presidente, duas vezes. Elegeu a sua sucessora. Se ganhar com Haddad em São Paulo continuará Comandante Zero do governo da primeira mulher presidenta do Brasil. Lula tem eleitores cativos.

Você pode não gostar de Maluf que em política é anterior a Lula. Foi prefeito da maior cidade da América Latina, duas vezes. Governou um “país” chamado São Paulo de 1979 a 1982. Maluf tem eleitores cativos

Com mais de 30 partidos políticos o que mais há é acordo, acerto, barganha. Tudo como manda o figurino político-eleitoral brasileiro. Mas, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Aqui no pantanal sucuri engolir jacaré é uma coisa. Onça comer veado é outra coisa. Neste ambiente de coisas insustentáveis e politicamente normais sob as quais sobrevivemos quem você acha que levou a melhor: Lula ou Maluf?

Amilcar Mendes, malufista, descansando em Miami:

Rei nunca perde a majestade. “Só digo sim aqui na minha casa”. O beija mão aconteceu no jardim. O maioral, o mais esperto dos espertos, o Cara, partícula divina no Brasil, aquele que mais desancou e ofendeu Paulo Salim Maluf, rendeu-se ao slogan daquele seu amigo do “tudo por dinheiro”.  Fazemos qualquer negocio, por voto. Bolsa de dinheiro até pra criminoso.

“Haddad, sem Lula não tem negócio. Ele tem que vir”.

O “gênio” da articulação, do improviso, da intuição, carismático, mais audaz e convincente que Jânio Quadros e Fernando Collor mordeu a isca. Aqui se faz aqui se paga. Nunca diga dessa água não beberei, ensinava minha Vó lá em Belém. Lula malufou! O Mestre, o Dealer, que não senta em mesa com baralho velho e nem entra em bola dividida, chamou a imprensa. Uma foto vale por mil palavras.

João Parente, lulista, Cáceres, MT:

Qual o grilo? O partido do Maluf está na base aliada do governo Dilma. Buscar apoios para eleger o ex-ministro da Educação prefeito de São Paulo faz parte do jogo que Lula sabe jogar bem. Como ele governaria oito anos se não fosse um bom de bola nesse campo minado que é a política brasileira? Se eleger o prefeito de São Paulo é a grande meta, a maior prioridade visando às eleições presidenciais de 2014, Lula está certo.

A ordem dos fatores não altera o produto

Aonde os dois poderiam se encontrar sem criar rebuliço, enxame de jornalistas, fotógrafos, curiosos? Quem quer, vai, não manda. Lula foi buscar apoio público. Voto. Não foi pedir benção pra Maluf. Queiramos ou não é uma liderança com bastante voto, principalmente, na capital paulista. Seria diferente se os dois se encontrassem debaixo do Minhocão? Num restaurante famoso? Às escondidas? O local não altera o acordo.

Deus e o Diabo na terra do sol

No filme, Lula é Deus. Maluf  o Diabo. Lula, incorruptível. Maluf, corrupto. Lula da esquerda. Maluf da direita.

“Mas, há uma pergunta nas minhas duas bocas” diz Irene Poconé de sua cama em Brasília, esquentando-se nos braços protetores de ex-senador, “depois da partida M x L filmada e registrada acabaram-se nomenclaturas, abreviações, designações, tipo Esquerda e Direita? Honesto e desonesto? O encontro terminou zero a zero? È o nascer de uma nova Política? No pau-a-pau, Salim ganhou. Parabéns Maluf”.

Erundina, companheira velha, (78 anos em novembro) liderança dos subterrâneos da liberdade, ex-prefeita de São Paulo (1989 a 1992), expulsa do PT por ser ministra de Itamar Franco, aceitou ser vice de Haddad, o candidato do “Novo”. Dias depois do abraço de tamanduá Erundina pulou da canoa com um “Lula errou”. Se houve uma negociação, o que rolou? Cargos no governo federal? Money? Quibe cru? Esfiha? Sarapatel? Buchada de bode? Pinga da boa? Afinal, quem mudou? Lula ou Maluf? Um pouco de história em Frases não faz mal a ninguém:

“Maluf deveria ser condenado à prisão perpetua”.

“Como Maluf pode prometer acabar com ladrão na rua enquanto ele continua solto?”

 “O símbolo da pouca vergonha nacional está dizendo que quer ser presidente. Daremos a nossa vida para impedir que Paulo Maluf seja presidente.”

“Se o civil tiver que ser o Paulo Maluf, eu prefiro que seja um general.” 

“O problema do Brasil não está no deputado Paulo Maluf, mas sim nos milhares de Maluf.”

“Quem votar em Lula vai cometer suicídio administrativo.”.

“Estou feliz. Afinal, não estamos em campanha. Enquanto isso, alguns desocupados, como é o caso de Lula, andando pelo Brasil com emprego dado pelo PT, ganham o dinheiro dos trabalhadores.”

“Quero evitar que o PT tenha aqui base para alavancar a eleição do Lula, foi o que eu disse para um amigo, na sua empresa de mil funcionários: ‘Você colocaria o Lula como diretor de Recursos Humanos? Ele respondeu que não, e eu disse: ‘Peraí. Não serve para ser diretor da sua empresa e serve para ser presidente da República?”

“Ave de rapina é o Lula, que não trabalha há 15 anos. Faz 15 anos que não está no torno, não conta como vive e quem paga seu salário. Se o Lula acha que há ladrões à solta, que os procure no PT, principalmente os que patrocinaram a municipalização do transporte coletivo de São Paulo.” 

“Declaração infeliz do presidente. Se ele quer realmente começar a prender os culpados comece por Brasília. Tenho certeza de que o número de presos dá a volta no quarteirão, e a maioria é do partido dele, do PT.”


POPULARIDADE E CLASSE C

“Se 50 milhões acreditam numa besteira, 

“A besteira continua sendo uma besteira.”

Bertrand Russell

A grande invenção do governo, que contribuiu efetivamente para a sua sustentação popular e eleitoral, foi o surgimento e manutenção de uma classe C, formada a partir de padrões de consumo popular e de um nível de renda em média de 1.500 dólares. A classe C, completamente destituída de ideologia, só quer mesmo é consumir. Tal fato sociológico é de tão grande envergadura que a mídia, nos últimos anos, tem aberto francamente as portas para esse contingente, manobrando a programação das redes de televisão no sentido de agradar esses emergentes de ocasião.

Não é à toa que se investe em temáticas suburbanas, em duplas caipiras e cantores evangélicos nas novelas e nos intervalos comerciais, povoando o horário nobre de ícones que somente interessem àquela classe. A pretexto de inclusão social aprofunda-se ainda mais o abismo entre um país preferido pela norma culta de outro, mitificado pela deseducação, pelos preconceitos às avessas, erros propositais de português, termos chulos e programas de ofertas aos carentes e necessitados.

Como esse contingente constitui-se, hoje, de cerca de 40% da população, tem impulsionado as modificações da economia e da cultura, sendo a alienação ideológica um traço distintivo de comportamento que o sujeita a toda espécie de manipulações. Nesse contexto, contemplamos aí um ovo da serpente de futuros Hitler e Mussolini, cujos objetivos de ódio supõem sempre o cancelamento do regime democrático em nome do culto à personalidade. Quem não está habituado a pensar, quando o “calo econômico” aperta, está sujeito a aceitar quaisquer soluções fantasiosas e diabólicas, mesmo que firam de morte o Estado Democrático de Direito.

A classe C é, pois, fascistóide em suas origens, porque não tem rumo nem destino. Ela aplaude quem a faz sobreviver, comer e consumir. Enquanto for assim, tudo bem: o dirigente de ocasião terá assegurada a popularidade. No entanto, se o tempo fechar, com nuvens plúmbeas, logo a sustentação do regime demonstrar-se-á frágil e proporcional à saúde de nossos últimos mandatários.

Afinal, os truques de marketing esgotam-se e o que era considerado verdade passa a ser mentira, mesmo para os espíritos dorminhocos. E os espíritos despertos evidentemente desconfiam muito da calmaria podre em que estamos vivendo… Afinal, popularidade é coisa invisível, pouco confiável e não enche barriga de ninguém, muito menos da classe C.

*Waldo Luís Viana é escritor, economista, poeta e adora enxergar contra a corrente. Teresópolis, 7 de maio de 2012.