Trilha sonora: *

Pagão. Cristão. Romano. Fariseu. Luterano. Bonapartista. Republicano. Anarquista. Comunista. Nazista. Fascista. Direita. Esquerda. Judeu. Alemão. Polaco. Negrão. Japa. Portuga. Brazuca.   

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Apelido, rótulo, carimbo, marca social, mudam de valor e significado. “Pedro, você me negará três vezes”. Ninguém queria ser chamado de cristão. Era pejorativo e perigoso ser da seita do “peixe”. Já foi in ser chamado de nazista, fascista, comunista.

Judeu. Turco. Japa. Portuga.

Judeu (muitas vezes confundido com turco), japonês, português, são citados no menosprezo. Lembrados na gozação da piada. Em Nova York, quando a maconha de estudante e a heroína de viciado foram substituídas pela cocaína em Wall Street e nas discotecas, ser chamado de colombiano ou Colón era discriminatório. Out. Mas, dependendo da roda, podia ser in.

Where are you from? Vi atikuda?

No exterior, muito mais que a profissão, corpo, beleza, sucesso ou não, o que reflete mesmo no comportamento e imagem é a nacionalidade. De onde você é? Where are you from? Povos guardam percepção e imagem de outros povos pelas guerras, religião, música, artes, conduta moral, tecnologia, violência, corrupção… Na universidade em Moscou, entre milhares de estrangeiros, eu era chamado de “Brasil. Brasileno”. Até fixar o meu nome com trabalho, crédito, marcar presença em eventos importantes, americanos me identificavam como Míster Brasil, Brazilian of 46street. O brasilerro.

Não se tira rótulo e imagem como se tira camisa.

É necessário gerações para se apagar do imaginário popular a percepção e imagem que se tem de um povo. Fama boa. Ou má.  Gente canalha. Honesta. Desonesta. Not reliable people images “Cristão ao leão”. “Luteranos, protestantes, são hereges. Quando morrem, vão para o inferno”. “Não devemos permitir judeus na Alemanha”. “O Brasil não é um país sério”. “Comunistas comem crianças”. “Essas Brazucas são todas umas piranhas”.

Atualmente, com as facilidades tecnológicas e o aperfeiçoamento do marketing em relações públicas é fácil limpar “manchas”. Apagar “tatuagem social”. Alterar branding. Transformar patife em gente de bem. Safado em deputado. Corrupto em ministro. Pilantra em presidente. No Brasil, brasileiro não chama outro brasileiro de Brazuca. É carioca, mineiro, paulista, nordestino, baiano, gaúcho, cabeça-chata, pau rodado, sambista, sertanejo. Brazuca é gíria, apelido, que se usa, se aplica, ao brasileiro no exterior. Com sentido pejorativo. Down.

O alvo do bullying não foi consultado. 

Não fizeram enquete, pesquisa. Não perguntaram aos interessados, se deveriam, ou não, carimbar de Brazuca a bola oficial da Copa do Mundo. Alcunha. Bullying. Podem afetar no trabalho, na escola. Prejudicar a si. A imagem da família. Do país.

A FIFA, CBF, TV Globo, atropelam, decidem. Com aval do governo. E agora que Inês é morta temos que “sentar e relaxar”. Meteram-nos a Copa mais cara do Mundo. “Coincidentemente” no ano das eleições presidenciais. Precisamos, pois, ganhar a Copa. Mesmo na base do rouba, mas, faz.

“Usam a nossa imagem. Sem consultar”. obsessao-ortografica-02

“Por que Brazuca? 77,8% entre Carnavalesca e Bossa Nova. Preferência de quem? Minha? Nossa? Não foi. Poderiam ter feito uma campanha mundial. A TV Globo dona do pedaço alcança os brasileiros no mundo. Deveriam respeitar e prestigiar quem de fato divulga o Brasil no exterior. Não é o governo nem suas muitas repartições. É o brasileiro, mesmo no anonimato, o grande propagandista de seu país”. Fornaro. Boston.

Dilmona. Genoína. Lulona. A bola poderia ser Brasiliana, Brasileira, Amazonas, Pelezona, Popozuda. Dilmona, Genoína, Lulona, Belezona, Bundona, Malandra, Gostosona. Pode ate mudar, mas, Brazuca sempre foi pejorativo”. Maria, Amsterdam.

O palco do Dia do Brasil  A Copa do Mundo é no Brasil. Portanto, o lugar mais apropriado para uma consulta mundial para o nome da bola jogada no Brasil, com repercussão planetária, teria sido o palco do Dia do Brasil. O Itamaraty tinha por obrigação cívica liderar enquete, pesquisa, junto aos diretamente interessados.

A TV Globo é dona das transmissões. imagesCAT29YQP “Faturando bem alto com a Copa do Mundo. Grilou e tomou para si o Dia do Brasil, o maior evento verde e amarelo no mundo. Através do qual usa os Brazucas com o “mamãe to na Globo” para aumentar audiência, IBOPE. Vender DVDs, dish, shows, pacotes de Canais de TV, novelas…

“Fez do palco do Brazilian Day uma propriedade exclusiva sua e de seus contratados.  Deixou de ser o Dia do Brasil. È o Dia da TV Globo que tem por obrigação produzir factoides, histórias, novelas, para que a palavra, o meaning, Brazuca, passe a ser positivo. Pois, foi sempre depreciativo”. Amílcar Mendes, NY.

As aventuras do Zé Brazuca

Sofri na pele, no coração, a discriminação, o desrespeito, de ser chamado Brazuca. No sentido ralé: Aquela gentinha da Rua 46”. “Lá só tem engraxate, garçom, lavador de pratos, cozinheiro, entregador de compras, putinhas”. “Joguem no lixo aquele jornaleco”.  “Não comprem na Rua 46”.                           

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Era preciso dar o troco com elegância. Pensei num “herói” decente. Amigão. Quebrador de galho. Graças a Gutenberg Monteiro, caricaturista da velha guarda, trabalhando nos quadrinhos da Marvel em NY, colocamos as Aventuras Americanas do Zé Brazuca no jornal The Brasilians.

O sucesso foi tão grande que criei o Kid Valadares. Para bater em quem nos batia. Kid fazia gozações das madames brasileiras que nos discriminavam. Esperto. Ensinava caminhos para quem estava na pior. Do tipo virador. Conquistador. Mas, sangue bom.

Troco de Portuga

Dizem que Brazuca foi resposta de português ao nosso Portuga. Argentinos tiram uma casquinha no pejorativo. No Paraguai, somos chamados de braziguaios. “Na Espanha e Portugal descem o pau na gente” Claúdia. Lisboa.

“Meu casamento com o Saraiva ia bem em Patterson, NJ, ate que duas tias dele foram nos visitar. Elas implicavam comigo, com as minhas sandálias, meu batom, minhas calcinhas com renda. Cochichavam com as vizinhas. Na cabeça das portuguesas, lá fora, toda brasileira é vagabunda. Tipo toda brazuca é puta. Há sim essa imagem de Brazuca vulgar”. Maria de Lourdes, Poços de Caldas.

imagesCA0ZQ2Z0no inverno NY Mas, em Nova York, foram brasileiros que se consideravam elite. Melhores. Superiores. Novo rico. Os que faziam chacota. Apontavam o dedo para nós: Brazuca da 46.

O colunista social, Morgan Motta, dizia: “Madam de diplomata. Nova rica. São loucas pra ir a 46. Com vergonha do que vão dizer mandam a empregada comprar guaraná, goiabada, palmito, revistas, levar escondido o jornal The Brasilians pra ler o que escrevo”.  

“Ame-o ou deixe-o”.

Vivíamos tempo cinzento do ame-o ou deixe-o. A esquerda, por estarmos nos EEUU, via-nos com desprezo. A direita, por termos saído do país para tentar dias melhores, via-nos como traidores dos ideais da ditadura. Recebíamos mais atenção e cobertura jornalística de jornais, revistas, Rádios, emissoras de TV dos Estados Unidos, América Latina, do que da imprensa brasileira. A TV Globo quando noticiava era sempre com menosprezo, “derrubando”.

No viés “ame-o ou deixe-o”. Certa vez, uma repórter de O Globo diante do nosso sucesso e não encontrando nada de negativo escreveu na manchete de sua matéria: “Jota Alves, o Rei da 46, e da Goiabada”. (Entre as atividades tínhamos o Mercado Brasileiro com aqueles produtos mais desejados pela “saudade”: guaraná, palmito, café, goiabada cascão, jornais, revistas, discos, feijão preto, farinha…

Mudamos o jogo    pele no cosmos 2

Edward Koch, prefeito de Nova York, com o jornal The Brasilians. Ele Proclamou o Dia do Brasil um evento da cidade. Subiu ao palco na Rua 46 e mandou: ““Parabenizo Míster Alves por esta bela festa em nossa cidade. Obrigado Brasil”.

img039 img050 Márcia Kubitscheck, filha do presidente Juscelino, o criador de Brasília, juntamente com celebridades no Júri do concurso de fantasias no Waldorf Astoria.

pele com Muhhama Ali     imagesCAKGKYPYsergio Pelé fazia o soccer crescer na América.  O grande campeão Muhamed Ali espera para cumprimenta-lo. Sergio Mendes tocava na Casa Branca.

O jornal The Brasilians. E o Carnaval do Brasil no mais famoso hotel do mundo mudaram o jogo a nosso favor. Vitrines de Nova York decoradas com fantasias  convidavam ao carnaval do Rio de Janeiro. Os principais canais de TV noticiavam o Brazilian Carnival como a Oitava Maravilha do Mundo.  Sergio Mendes tocava na Casa Branca. Lotava estádios e parques. O Brazilian beat estava por toda parte. Turistas enchiam butiques e restaurantes da Rua 46 e os novos nas Ruas ao lado. Lojas na Quinta Avenida e na Broadway mostravam a bandeira do Brasil para atrair clientes.  GrACE MNSION

Quando souberam do meu breakfast  com o prefeito na Grace Mansion (a residencial oficial) saltei de Brazuca para Celebridade. VIP. Na sequencia, pela primeira vez em quinze anos, o Brazuca Rei da 46 e da Goiabada, recebeu convite especial para um cafezinho com o Consul Geral do seu país. Bem Brasil!  pele no cosmos 2

E tem mais gol. Semestralmente, a Casa Branca convidava lideranças nacionais para um encontro com o Presidente dos Estados Unidos. E os Brazucas se fizeram representar pelo fundador editor do jornal The Brasilians. Se inveja e ciúme matassem, eu estaria morto! E tem mais desprezo e volta por cima. Mas, é para outro RH.

O grande arremate foi o Dia do Brasil.

Oficializado pelo prefeito na agenda da cidade. Com a placa na esquina da Quinta Avenida com a Rua 46 os Brazucas se consolidaram como uma comunidade produtiva, sensata, criativa.  Saíram do anonimato para o estrelato. Do gueto para a história como uma das mais importantes comunidades estrangeiras de Nova York.   O Dia do Brasil ocupa mais espaço, mais quadras, recebe mais gente,  desvia mais trânsito, mobiliza mais policiais, recolhe mais lixo, dá mais despesa para a cidade, do que o Dia dos Irlandeses, Italianos, Alemães, Latinos…       pele no cosmos 2

 Brazilian_Day_2012_Vera_Reis_17 adriana etcimagesCAT3BKZRmail

A minha geração de Brazucas não decepcionou.

imagesCAR8THP5estatua e empireSoube manter bem alto o nome e a imagem do nosso país. Soubemos navegar sem confundir governo com nação. Levamos cacete por hastear a primeira bandeira na Rua 46 e abrir o Dia do Brasil com o Hino Nacional pelo coral da Igreja Assembléia de Deus de Queens. 

Radicais mal informados diziam que estávamos promovendo a ditadura. Como se o Brasão, a Bandeira, o Hino, símbolos e marcas da nação, fossem propriedade de general ou de espertalhão na presidência do país. Da “minha turma”, muitos, para os padrões americanos, ficaram ricos. Para os padrões brasileiros, milionários. Formaram família com filhos e netos brasileiro-americano. E o mais importante, desfrutam de boa saúde.

Aprender. Fazer sucesso. Colher frutos.

Na mais espetacular e competitiva cidade do mundo nem tudo foi um rose garden. Mas, nunca tive problemas com americanos e suas leis. Respeitado pelas lideranças estrangeiras que se destacam na melting pot  sempre convidado para as mais importantes celebrações nacionais da cidade .

Mas, fui alvo de bullying. De competição safada, desonesta, invejosa. Adivinha de quem?  imagesCAUV0WV0bazuca Continuo como comecei na 46. Escrevendo. Opinando. Penso editar a Opinião do Sací por duas décadas na penúltima pagina do jornal TB. Continuo idealizando. Participando. Sonhando. Tentando The unreachable star.

Surpreso com a minha capacidade física e mental de sobreviver a tantas intempéries. A tantos bullying E desgostoso com tantas brazucadas na gestão pública do meu país. Espero que a Brazuca não decepcione. Não seja um retrocesso na nossa luta pela imagem positiva do brasileiro no exterior.    

A Brazuca de ouroCarmen Miranda

Por seu retumbante sucesso nas telas do cinema, na Broadway, Carmen Miranda foi idolatrada nos Estados Unidos. Abriu o Brasil para o mundo. Criou a nossa imagem de good people, hospitaleiro, educado, cheio de alegria e musicalidade.  Mas, caíram de pau em cima dela.

Foi acusada de americanizada, entreguista. O esquerdismo da época-de todas as épocas- a massacrou. Seu maior desgosto foi ter sido discriminada por brasileiros. E mesmo assim, pediu para ser enterrada no Brasil. 

“Nunca antes na história desse país”. É marketing chinfrim. De baixa qualidade cívica. Triturador de memória, tradição, cultura. Antes de mim. De todos os que promovem e divulgam o Brasil houve alguém. E, para mim, houve e haverá Carmen Miranda.  Antes dela Villa Lobos. Ates dele Carlos Gomes…

Divulgue. Encaminhe. Passe adiante. Copie. Discuta. Concorde. Discorde: www.oreporternahistoria.com.br. Escreve que eu publico: oreporternahistoria@uol.com.br. Para melhor leitura Zoom 125.