Trilha sonora:

Valentina, a noviça rebelde. Aperto de mão e um dedo de prosa com o Marechal Tito. Laura, paixão de cinema. Dois brasileiros no time da Croácia.

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Eduardo e Sammir  A seleção da Croácia vem com dois brasileiros: Eduardo Silva, atacante. Jogou 55 vezes pela seleção, marcou 28 gols. Sammir, meia de campo, foi revelado na categoria de base do Atlético Mineiro e Atlético Paranaense.

Entrando na Livraria Cultura, Avenida Paulista, São Paulo, ouvi a resposta: “A Croácia faz fronteira com a Líbia e lá o povo fala italiano. Nos dias de hoje, não é racialmente correto dizer que alguém canta o “samba do crioulo doido”. Do culto e bem humorado Stanislaw Ponte Preta.

Também já ouvi: “ o país é chamado assim por que lá eles carregam marfim na costa”. “Camarões são peixes pretos. Não se come”. “A Costa Rica é uma ilha nos Estados Unidos”.

Pela resposta da bonita. Pelo tinir dos meus ouvidos. E razões muito pessoais. Segue um resumo sobre a Croácia que abrirá com o Brasil os jogos da Copa do Mundo 2014, no Itaquerão.

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Por sua localização a Croácia é o coração da Europa. Fazia parte da República Socialista Federativa da Yugoslávia criada por Joseph Broz Tito para sérvios, croatas, bósnios, macedônios, montenegrinos, eslovenos, viverem “integrados na irmandade e cooperação”.

Capital Zagreb. 4.5 milhões de habitantes. Banhada pelo Danúbio e Adriático. Foi a queridinha de imperadores romanos. Em suas relíquias, o Palácio Deocleciano, construído nos séc. I e II após Jesus.

Seu dia nacional: 30 de maio. Moeda kuno. Idioma croata. Eslavo, mas, com alfabeto latino. Membro da OTAN e da União Europeia. Entre os seus produtos de exportação: tabaco, açúcar, plástico, ferramentas, aço, ferro, navios. O Brasil não consta entre os seus principais parceiros comerciais: Itália, Alemanha, Rússia, Áustria, China. A Croácia é um belo destino turístico.

“Todos éramos um só povo. Ninguém questionava quem era sérvio, quem era croata, quem era bósnio”. Joseph Broz Tito.

A morte de Tito. O fim da URSS. As guerras internas. Desintegraram a Yugoslávia. Esses povos formaram novos países na região conhecida nos livros de Geografia e História como Bálcãs. Berço de Filipe da Macedônia. Alexandre, o Grande. E de Laura Antonelli, minha paixão erótica cinematográfica. Nascida em Póla, Yugoslávia, batizada Laura Antonaz. Diva do cinema italiano.

A primeira guerra mundial

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Jô Soares confirma em livros, entrevistas, com forte tendência anarquista, que Gavrilov Princepz, o cara que matou o Arquiduque austríaco Francisco Ferdinando, era bósnio. Meu amigo, o padre ortodoxo Dago Krambeckovich jura que o primeiro terrorista do século XX, era croata.

O império austro-húngaro dominava a região da Bósnia-Herzegovina e Francisco Ferdinando, herdeiro do trono, não dava mostras de mudar a política do império. O Anarquismo de Bakunin, Krapotkin, era a maior força política antes do triunfo do socialismo russo-soviético. Ao assassinar o Arquiduque Francisco, o solitário Gavrilov, deflagrou a Primeira Guerra Mundial

Pedro II

Tito, jovem metalúrgico, alinhou-se às fileiras comunistas. Foi preso pela polícia do Czar na fortaleza de Pedro e Paulo em Leningrado. Transferido para a Sibéria, fugiu. Combateu nas ruas de Moscou pela revolução de Outubro. Destacou-se contra a dominação austro-húngara e o reinado de Pedro II. Isso mesmo. O Rei daqueles povos era Pedro II. Sem o Dom do nosso Pedro II.

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Durante a Segunda Guerra Mundial, Tito criou os Partisans e liderou a resistência contra os alemães. Com a vitória, e consagrado líder máximo, formou a República Socialista Federativa da Yugoslávia. Nos moldes da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, idealizada por Lênin.

O pau quebrou. Stálin expulsou a Yugoslávia do bloco socialista.

Os dirigentes do bloco soviético beijavam a mão de Stálin. Tito e Stálin se bicavam na fogueira das vaidades. Tito afirma que seu país toma o sistema soviético como exemplo, mas desenvolve uma forma diferente de socialismo, o Titoismo”. (Na foto, Tito e Churchill)

“Independentemente do quanto um homem ame a terra do socialismo, a União Soviética, ele não pode amar menos a sua própria terra”.

Os Não-alinhados

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Mesmo com a atitude totalitária do socialismo russo Tito não caiu nos braços capitalistas. Inteligentemente, reuniu países emergentes em torno do movimento dos Não-Alinhados.

Tito foi o criador do “Terceiro Mundo”. Na foto: Nehru (Ìndia), NKruma (Gana), Nasser (Egito) Sukarno Indonésia, Tito (Yugoslávia). 

Breznev e Tito se davam bem

Veteranos do conflito mundial, Tito e Kruschev se entenderam na Guerra Fria. A Yugoslávia não ficou no Pacto de Varsóvia. Mas, tampouco entrou para a OTAN. Mas, foi no período Leonid Breznev que a amizade URSS/Yugoslávia viveu seu melhor momento.

Tito no Brasil.

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Em 1963, o Marechal visitou Brasília. Em 1965, o nosso embaixador em Moscou era o mato-grossense Henrique Rodrigues Valle. O embaixador de Corumbá e o estudante de Cuiabá jogavam sinuca e “matavam saudades” do berço tchapa e cruz. Muito antes da divisão de Mato Grosso.

1. O selo comemorativo da viagem de Tito ao Brasil. 2. O corumbaense e o cuiabano na sinuca. 3. Com o senador Humberto Neder no metrô de Moscou. Estação Pabeda. (Vitória). 4.Tito.

Intérprete e tradutor, eu acompanhava o embaixador e seus convidados, a recepções, balés, encontros, coquetéis. Foi na embaixada da Yugoslávia, nos anos dourados da URSS, que tive o privilégio de ficar frente a frente com o Marechal Tito. E apertar-lhe a mão.

Valentina, a noviça rebelde.

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Anos depois, soube que a minha “paixão” não era italiana. Mas, nascida na Yugoslávia. Então, a minha fissura por Laura Antonelli aumentou. Os filmes dela me transportavam de volta ao meu melhor momento sexual no socialismo.

Em Belgrado, num albergue da igreja para estudantes em férias, conheci a noviça Valentina. Cópia camponesa de Laura Antonelli. Jeito de pura, santa, devassa. Lembro com se fosse hoje:

No sexo, em transe, ela revirava os olhos. Cometendo “pecado”. Gemia, tremia. E vivemos aquele círculo vicioso. Sado-masoquista. Trepar era bom. Mas, era pecado. E quanto mais trepávamos, mais pecado cometíamos.

Com o albergue cheio de estudantes, clérigos, freiras, Valentina estava no comando do onde e quando. Ela dizia “Jota, vicigdá gatov”. E ela sempre pronta. Sem calçinha. Era só levantar a saia larga e comprida. Com ela, adquiri o hábito de não usar cueca. Desde Valentina nunca mais fui o mesmo.

Esposa Amante

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Em Nova York, fui ao lançamento do filme Esposa Amante. E baita coincidência. Namorei Letícia, uma italiana, cabelo, corpo, olhos, com aquele jeito Laura Antonelli.  Ai foi demais. Ou eu é que estava enxergando demais.

Era tempo do VHS. Fucei, fucei, ate ter seus filmes mais famosos. E mais eróticos. Daquele erotismo do cinema italiano mesclado com humor, malícia, sensualidade. Oposto de pornografia chinfrim, apelativa.

Os filmes de Laura Antonelli ajudaram-me na travessia comunismo/ capitalismo. Mulher soviética/ mulher americana. Há sim diferenças “ideológicas” no approach, orgasmo, prazer, no sexo em Moscou, e no sexo in the USA. Assunto não estudado por antropólogos, psicólogos, sexólogos.

Quando sobe saudade da noviça Valentina vejo filmes de Laura Antonelli. E para quem não os assistiu, estão remasterizados em DVD: A Veneziana, Esposa Amante, Malícia, O inocente.

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È por Valentina e Laura. É pela tristeza com a brutalidade e selvageria em meu país. Que me dá uma vontade danada de colocar a armadura e voltar a ser o Cavaleiro Andante. Não mais para Moscou ou Nova York. Ir para Uppsala. Ou para a linda Croácia. Rever o albergue em Belgrado. Ou para qualquer lugar banhado pelo Danúbio e pelo mar Adriático. Berço de civilizações.

Doze apóstolos da Cultura

Quando a euforia midiática coloriu a Copa pensei alto: Oportunidade única para sairmos da estagnação criativa. De uma década de marasmo e atraso cultural. Sacudir o país pelo lado bom.

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Transformar as sedes em Doze Apóstolos de Educação, Cultura, Turismo, Hospitalidade, Bom humor. Estava lá quando anunciaram a minha querida Cuiabá.

Escrevi: “Levar o espírito da Copa para as crianças. Convidar e patrocinar compositores, músicos, cantores/as, artistas de palco e de rua, cozinheiras/os, costureiras/os, artesãos, taxistas, aposentados, para o Grande Abraço 2014.

A matriz de Cuiabá da minha primeira comunhão. À esquerda, a Escola Modelo Barão de Melgaço, do primário. Atualmente, Biblioteca Pública. 

Rádio e TV.

Concessão pública, seus locutores deveriam instruir o povo. A TV Globo e a BAND, líderes em programação esportiva, poderiam produzir especiais sobre cada um dos países participantes.

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Trinta e dois especiais. Em horário nobre. Mais o brasileiro conhece o mundo, melhor a sua percepção da realidade. “Eles sabem mais de nós do que nós deles”.

O ministério da Educação, Cultura, Turismo, Esporte, não souberam, ou não quiseram, usar esse momento unique. Atolados nas obras inacabadas. Ocupados com insolúveis problemas de gestão. Empurrando com a barriga e o bolso.

Há quarentas anos no exterior, promovendo o Brasil. Divulgando seus produtos culturais. Ofereci e publiquei sugestões para o espetáculo de Abertura e show de Encerramento. Muitos outros, no exterior, se convidados, poderiam contribuir, com visão de fora pra dentro.

Estão empanzinando o povo: Com propaganda. Slogans. Clips. Comerciais. Temperados com patriotismo de arquibancada. Com o arroz e feijão eleitoral. De Cultura, via futebol, o esporte das multidões, nada.

Não há na história nenhum povo que tenha evoluído e, sobrevivido, com obras e realizações materiais. Há que investir nas instituições. Nos princípios morais e valores éticos. Nas relações sociais sadias.

No Brasil, o obrismo, repetidamente anunciado, não pode ser maior que o combate ao crime. Há que enfrentar o avanço da brutalidade e da barbárie. Com entusiasmo, recursos, e rapidez Copa do Mundo.

Vivi. Vi. Aprendi.

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Casa de graça. Creche de graça. Escola de graça. Universidade de graça. Hospital de graça. Férias de graça. Enterro de graça. Em apenas cinquenta anos as conquistas materiais da União Soviética foram colossais. Espetaculares. Grandiosas.

E mesmo assim, a poderosa URSS desintegrou-se. Acabou. Os povos que a formavam viviam sob alicerces culturais falsos. Mobilização ideológica permanente. Dogmas fossilizados castradores de iniciativas e alternativas. Maiakovski, desiludido, repetia: “sem poesia nas coisas e no coração, não sobreviveremos”. O poeta estava certo.

maiakovskyMesmo conquistando o hexa o governo perdeu magnífica oportunidade. Teve sete anos para instruir, culturalmente, todas as classes sociais do país. Agora é no vai ou racha. No ônibus da seleção croata a faixa: Com fogo em nossos corações, pela Croácia, todos por um. Dia 12 de junho.