Trilha sonora:

Índice.jpgLeni e a eletrificação

Lênin: ” Comunismo é todo poder para os Soviets mais a eletrificação do país”.

Eu estava lá. Vivendo o meu sonho de menino do garimpo“Inteligente”, magro, cáries, vermes. No pré-sal da tuberculose que aflorou no segundo ano de frio intenso. Debelada com doses cavalares de antibiótico. Cobaia dos primeiros testes de broncoscopia. Gordinho, após meses em sanatório às margens do rio Volga.

Entrei na história da revolução de Outubro. Viajei no Estrela Vermelha, o trem preferido por Trotski, assassinado no México. O último dos Cinco Grandes Camaradas de Lênin. Visitei cantos e caminhos de Wladimir Ilich.

No Kremlin, conheci o quartinho que ele dividia com a companheira professora Nadejda Krupskaia. Ouvi poemas “da boca de Maiakovski”. Muitas noites, no Teatro Bolshói, cavalguei, com Dom Quixote. Ajudei a caçar ratos para nos alimentar no cerco de Leningrado. Dormi duas noites em Yasnaya Polyana. Entrei no galpão onde Tolstói se refugiava para escrever “Guerra e Paz”.

Hospital ao lado da “dacha” de Stálin.

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1. No hospital e no sanatório para tuberculosos conheci os descamisados, destituídos, perseguidos, as rejeitadas. Uma outra universidade. 2. Natasha, o anjo comunista que rindo me acordava com agulhadas na bunda, nos braços. Seis meses com doses cavalares de antibiótico. 3. Com amigos no sanatório.

No check up anual lá estava o caroço na ”saboneteira”. Mandaram-me para biópsia no Hospital de Oncologia, arredores de Moscou. Na região de Kuntsevo,  Stupino/Domodedovo. Podia ser câncer. Não era. Tuberculose linfática. Resultado da fome crônica adolescente.

O hospital próximo da chácara (dacha) de Stálin em Kuntsevo, imponente, branco, colunas altas. Havia sido Academia Militar. Aos fundos um lago e um belo campo de futebol. Dois meses em observação. Adorei a médica da biópsia. Mas, transava com a enfermeira. Comprei uma bicicleta velha, toda resoldada. Fucei a região. Fiz amizades com camponeses, ferroviários, velhos soldados. Ouvia histórias comendo pão preto, cebola, pepino, rabanete, bebendo vodka caseira. 

images7KWAOL44 images.jpgsala dacha images.jpgstalin na dacha

Estrangeiro, com acesso a bens de consumo que o russo comum não podia ter, e com o DNA da corrupção, subornei um segurança. E numa noite de quinta feira lá estava eu na sala de onde Joseph Stálin comandou parte do mundo. Não era museu. Era chácara. Patrimônio do povo soviético. Lacrada, mas, com segurança. Russos passavam por ela murmurando. Com respeito e medo.

Toquei em uma de suas fardas. Segurei garfos e facas de sua cozinha. Bebi vodka num copinho com gravuras georgianas. Eu já me fizera drug do guarda. Mas, se não tivessem latentes os meus pudores comunistas, e com mais uns 10 rublos para o segurança, teria transado na cama do Camarada Chefe de todos os Partidos Comunistas do mundo, com a enfermeira que me acompanhou na aventura, que poderia lhe custar demissão e prisão.

Istô diélat?

Estava lá. Via, mas, não enxergava. Não sabia nada sobre os Conselhos que Lênin, um mestre do Marketing político, há cinquenta anos antes de a expressão ser “criada” por expert da Madison Avenue, Nova York, lançou com força vitoriosa: “Todo poder aos Soviets”. Conselho de operários, marinheiros, soldados, camponeses. (Algo que precisa ser desmistificado: não havia na universidade Patrice Lumumba aulas de marxismo, leninismo, comunismo. Havia sim em outros locais e cidades escolas/hotéis do Partido para líderes e dirigentes mundiais).

 untitled.png Pa Terra  images.jpgna guerra  imagesLGBPV32E.jpgConselhos

Nos tempos da coletivização do campo. Da industrialização na marra, Stálin glorificava os Conselhos: “eles são como uma correia de transmissão ligando o partido às massas trabalhadoras”. Mas, sob a liderança férrea do Partido, do Chefe.

Viktor Krasnov pamágui minié:

1907405_891509407544996_8247884305963613110_n tolstoi imagesC5AKVG41.jpgcasaTolstoi

1. O primeiro à esquerda, com colegas da universidade. 2. Inesquecível ter caminhado “conversando” com Tolstói. Aos fundos da casa, o galpão onde ele concluiu Guerra e Paz. Duas noites em Yasnya Poliana por influência da mulher de um general que visitava Moscou. Eu, acompanhante. Ela, no corpo e alma de “Anna Karenina”.

Viktor ficava na quinta cama, colada à janela. Jogávamos futebol. Criamos Tuberculosos X Cancerosos. Eu contava histórias da seleção. Pelé, Garrincha. O diagnóstico idêntico uniu papo e aventura. Viktor, filho de diplomata, estudava Comércio Exterior. Pinta, toca piano.

1236254_697109130318359_1197596707_nEu, estudante-profissional. Um Nem-Nem, vivendo da ajuda de companheiros e “simpatizantes”. De Conselho em Conselho, sem base em química, física, matemática, desisti de Geologia. Fui para Direito Internacional. Anos depois, encontrei-me com Viktor em Nova York.

Ele acompanhou o pai em missão às Nações Unidas. Sempre convidando: “Volte, passe um tempo na nova Rússia”. Eu convido: “Venha conhecer o que resta do Pantanal. Venha ver um jogo no Maracanã”. O tempo passa. Quem sabe na Copa do Mundo 2018.

(Na foto: Viktor, à esquerda, a chilena Alicia Canales, JA/RH, e o psiquiatra Burza, em exposição na Dom Drujbi (Casa da Amizade), Moscou. Nas andanças, perdi caixas, álbuns. Esta é a única foto que tenho do amigo Viktor.  A meu pedido, ele pintou um retrato do embaixador Henrique Rodrigues Valle).

Victor responde:

Dorogói Jouta, você não viu os Conselhos porque eles não existiam mais. Se, Lênin vivesse em nosso tempo, ele seria considerado um gênio do Marketing Político. Tudo que ele escreveu, disse, criou, organizou, foi no tempo certo. Na hora exata.

O que aconteceu com os Soviets de Lênin?

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Viktor: Com o livreto O que fazer? Lênin desempatou o jogo. Mencheviques, socialistas-revolucionários, o governo provisório com Kerenski, dominavam a DUMA (Parlamento russo). Defendiam reformas, mas, com o Czar no poder. Queriam que a Rússia continuasse na guerra contra a Alemanha/Primeira Guerra Mundial.

Lênin comandou os bolcheviques, proclamando: Pão, Paz, Terra/Todo poder ao Conselho de soldados, marinheiros, operários, camponeses. Na verdade, convidava todo mundo que se opunha à guerra, à continuação do Império.

Com a vitória da Revolução de Outubro, os Conselhos que nasceram do fervor revolucionário, da mobilização permanente, mas, sem estrutura ideológica definida, tinham que se enquadrar às tarefas do momento. Não é por acaso que Lênin ensina Conselho e Eletrificação. Ele sabia que as tarefas eram enormes.

(O Soviet ( Conselho) dos marinheiros do navio Aurora sacudiu a estrutura do Império. Relíquia da Revolução de Outubro em Leningrado/Petrogrado).

O voluntarismo, a improvisação, os desvios de conduta dos Conselhos, teriam que ser substituídos pela disciplina partidária “verdadeiramente férrea, tenaz, desesperada. É uma guerra contra a burguesia que exige serenidade, disciplina, firmeza, inflexibilidade, e uma vontade única. Guerra de vida e morte”. Ou seja, os Conselhos devem atuar com obediência ao Partido, ao Chefe (do Partido)”.

As necessidades, melhorias, foram substituindo os Conselhos pelos Comissários, Deputados, Administradores. Enfim, foi criado o Aparato do Estado com seus Ministérios, Estatais, Burocracia soviética. E acima de todo mundo o Partido, e acima do Partido, o Líder, o Chefe. O espírito Soviet foi definhando nas fábricas, escolas. Mantido com os Pioneiros, Konsomol, Heróis do Trabalho, Soldados, Brigadas Camponesas, pelo Realismo Soviético nas artes.

Conselho passou a ser do Chefe, grupo, máfia.

images.jpgStalin  untitled.pngGagarin untitled.pngValentina

Veio a Segunda Guerra Mundial. A coisa apertou pra todo mundo. Conselho de Guerra por toda parte. Depois, a tarefa era soerguer o país na Guerra Fria, com novos exigências de consumo. Você, Jota e seus colegas, viveram Anos Dourados da URSS. Os anos 60 foram gloriosos, bonitos. Anos de Padiom, Perestróica!

Limpávamos os escombros da guerra com novos apartamentos, universidades (a sua, por exemplo). Hotéis. Fábricas. Hospitais. Creches. Casas de descanso. Você foi passar férias no Mar Negro, era tudo de graça. A melhoria de vida era visível. Vencíamos a corrida espacial. Yuri Gagárin, Valentina, nos enchiam de orgulho. O comunismo estava chegando. Nós derrotaríamos o capitalismo.

De meados de 70 adiante só não via o fim quem não queria enxergar. O dogma. O sectarismo. O atraso. O nó cego nas instituições. A mentira midiática. Os Conselhos transformaram-se em feudos de oligarcas, máfias. Cada Conselho, um dono, um Chefe. Moradia, empregos, bolsas escolares, leitos hospitalares, contratos para obras, tudo, era negociado. Cada “conselheiro” tinha a sua cota, seu salário, seu privilégio. 

Uma coisa é Conselho na Revolução. Na guerra.

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Estive em Cuba quando os CDR -Conselho de Defesa da Revolução- eram extremamente necessários. Atualmente, as Brigadas de Respostas Rápidas vigiam e controlam opositores do regime. Conselhos Populares podem ser manipulados para centralizar o poder. Chantagear a Justiça. O Parlamento. Atacar a imprensa. Esmagar críticos e opositores. Se, vocês dizem estar em regime democrático, com Judiciário, Executivo, o Congresso legislando, por que inflar a gestão pública com mais Conselhos? O Brasil , rico em recursos naturais, tem sérios problemas administrativos, ineficiência, muita corrupção”.

O javali e a Petrobrás

Índice.jpgTribo Índice.jpgConselho Pasadena

Na caverna, ninguém se atreveria a roubar um pedaço do javali. Teria a cabeça esmagada. As Doze Tribos de Israel formavam o grande Conselho de Moisés, Abrão. O Conselho dos Pajés. Da tribo. A Confederação dos Tamoios. O Conselho de Anciões deu lugar ao Senado. O que mais temos no Brasil é Conselho. Como o de Administração da Petrobrás que “não viu” desvios, perdas, danos, na compra da refinaria em Pasadena.

O que são as ONGs? Mais uma “voz do povo organizado”. O terceiro poder. O equilíbrio entre o poder público e o privado. Temos mais de 300 mil dessas ONG/Conselho. Muitas, mantidas com dinheiro público. Desvirtuadas a serviço de interesses partidários, pessoais.

Um dia relatarei a minha experiência com Conselhos no governo de Mato Grosso. Fico arrepiado ao ouvir: “sociedade civil organizada, orçamento participativo”. Discussões “ideológicas”, das bases, varando a madrugada. Reuniões no horário que deveria ser de trabalho produtivo, de seis, dez horas. Milhares de cigarros, cafezinho, deram um nó cego no governo. Atravancaram e aniquilaram alternativas.

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O pouco muito que consegui inovar, promover, levar para Mato Grosso, custou-me amores, energia, cabelo, economia de 25 anos de muito trabalho e credibilidade em Nova York. Conselho Político é berço de inimizades gratuitas. Fofoca. Intriga. Pois ninguém vai ao Conselho sem antes acertar com os aliados, conchavar companheiros da mesma “linha”.

Mobilização permanente

O governo tem a maioria do Congresso. Domina os movimentos populares. Com pouquíssima exceção, controla as Centrais Sindicais. Tem a caneta das concessões de Rádio e TV. Gigantesca verba de publicidade. Tem ramificações por toda parte. Onde e como quiser. E com todo esse poder quer, por decreto, mais Conselhos?

Mais Conselhos para melhorar a gestão pública? Defensores do decreto dizem que ele não tem viés autoritário. Visa tão somente abrir novos canais para a participação popular. Eles ainda acreditam que no Brasil em acelerado processo de decadência moral, cultural, “a sociedade deve controlar o Estado, e não o contrário”. Querem a democracia direta, que de fato, nunca existiu. O comunismo primitivo? E quem educa e defende a sociedade? O Partido único, o Chefe, o Big Brother?

“Isso é plano B”.

Diz Conselheiro de Tribunal de Contas: “Lula não é e nunca será um Administrador. Lula é Mobilizador. Macaco morreu de velho. Do jeito que as coisas vão, e se perdem as eleições? Mais Conselhos para vigiar, dedurar, e manter falange, adeptos, (pagos). Não é para a modernização, independência, transparência, melhoria do serviço público. Não é Conselho para o bem do país. Conselho com Chefe Político é para controlar. Se a oposição ganhar, não governa. É plano B para manter Lula na crista da onda. Mobilizando para voltar em 2018”.

O Conselheiro tem razão. O país precisa é de organização.

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Não de mobilização eleitoral para o poder, pelo poder. Precisa de ordenamento. E não de bagunça e anarquia. Há Conselho em toda instituição. E estas estão apodrecendo. Há Conselho na Indústria, que definha. Há Conselho de Segurança Comunitária, e o crime avança, aumenta, com mais barbárie. Há Conselho para defender criança e adolescente e a juventude está sem rumo. Há Conselho de Meio Ambiente, e a devastação continua. Nesses últimos dez anos nada se fez pelos rios, pelas águas do país. Há Conselho de Saúde, e maternidade, Santa Casa, fecham as portas.

Há Conselho na Petrobrás e está foi/é assaltada, roubada. Há Conselheiros no Ministério das Relações Exteriores e a nossa diplomacia se apequena. Há Conselho fechando Ruas. Vandalizando propriedades, praças, avenidas. Há Conselho do Crime dominando presídios.

O Brasil necessita de mais CONSELHOS na administração pública federal, estadual, municipal? Ou deve fazer funcionar os existentes? Há Conselho por toda parte. E querem mais, do mesmo. Também havia Conselho por toda União Soviética! Será possível que a presidente Dilma, seus conselheiros, ideólogos, não sabem que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas acabou?

Por que insistem com Todo poder aos Soviets, made in Brazil? Eu vivi lá. Eu me formei lá. Eu tive amores lá. Também sofri, chorei, quando a estrela guia se apagou, sumiu. Mas, acabou. Finito. The End !

images.jpgLula e Hugo untitledlula e kadafi images.jpgLula e Ahmedinejad

O Brasil tem estágio de desenvolvimento diferenciado. Não pode ficar patinando em esquemas venezuelanos, bolivianos, iranianos, africanos, argentinos, cubanos. O governo passou uma década fazendo o jogo de Hugo Chávez. Sendo ponte para seus negócios petrolíferos com Ahmedenijad, Omar Kadafi, Mubarack, ditadores. Eles se foram. Qual a herança que nos deixaram? Onde e como estão os acordos, negócios, com essa gente?

Há que buscar conselhos na Tecnologia, Ciência, Pesquisa, Modernidade. E para isso não pode sair do Terceiro e cair no Quarto mundo. Conselhos bolivarianos no Brasil? Pelo amor de Deus! Há que recuperar a imagem positiva do Itamaraty. O “gigante” não pode ter diplomacia irrelevante, política externa not reliable.

Não faz muito tempo em uma ilha encontraram um soldado japonês com armas prontas para serem usadas. Ele não sabia que a guerra tinha acabado. Ele não estava louco. Mas, delirava. Dizia ouvir voz de comando e ver inimigos entre árvores. Gente, não há mais URSS! Não há mais Todo Poder aos Soviets! Vamos virar essa página. Vamos abrir outra na história do Brasil#  

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