A alegria de ver Gagárin voar no Espaço só não é maior que uma bela defesa de pênalti”.

Pela TV Globo, da Rússia, vi outdoor do goleiro Yashin. Sacudi um pouco da poeira do meu tempo soviético. Encontrei fotos para o Repórter na História narrar o seu encontro com o melhor goleiro do século XX.

Quando Vasili, sempre sério, caminhava em minha direção, eu já sabia: o Embaixador queria falar comigo. Mas, nesse dia, ele veio sorrindo, e disse: “Gaspádin Jota, o Consul quer vê-lo”. ( Vasili, o motorista do embaixador Henrique Rodrigues Valle, 1.89, também tinha sido goleiro. Na imagem, ele com o senador Humberto Neder e Jota Alves)

Terminei de filar a goiabada cascão, queijo de Minas, com nosso café de coador, naquele frio e lonjura, manjar tão precioso como o caviar, e fui ao Consulado do Brasil em Moscou.

O Cônsul assinava Georges de Castro Rebello, mas, todos o chamavam de Jorge (com J). Uns 45 anos de idade, e jogava no time de diplomatas. Levou-me para jogar com eles. O futebol nos unia.

Jorge conversava com um russo alto de boina preta. Virou-se para mim e disse: aperte a mão de Yashin, o mais famoso goleiro da União Soviética, um dos melhores do mundo.

Krasavitsa

Eu não vi Yashin jogar. Mas, bati bola com ele no estádio do Dínamo de Moscou, único time pelo qual jogou. O governo (leia-se, o Partido Comunista) havia autorizado sua viagem ao Brasil. Fato raro com o regime fechado e artistas e cientistas e atletas soviéticos abandonando as suas missões no exterior por asilo político.

Ele estava empolgado com a volta ao Rio de Janeiro, cidade que chamava de Krasavitsa (linda) e onde treinou goleiros do Flamengo. Yashin viajaria com mais três pessoas e tratava do assunto no consulado. Disse-lhe que o time de estudantes brasileiros já havia treinado no campo do Dínamo, (ao pé da majestosa Universidade de Moscou, nas colinas de Lênin).

Yashin convidou-me para vê-lo treinar. Ele balbuciava palavras em português. Admirava Gilmar, o goleiro de nossa seleção. Gostava de batidinha com cachaça (pinga), não com vodca. Nos vimos mais duas vezes. 1. Time de estudantes brasileiros. 2. È gostoso jogar bola com 5 graus abaixo zero. 3. Yashin treinando. 4. Estudantes brasileiros, ao fundo o estádio do Dínamo.

Lev Ivanovitch Yashin

Quando ele nasceu a revolução soviética tinha 12 anos de existência. Tempos heroicos e difíceis para a construção do sonho comunista. Guerra interna, guerra contra milícias e agentes externos.

Quando a Segunda Guerra começou Yashin com 11 anos já ajudava na fábrica de ferramentas. Estudava e vestia-se como um Pioneiro. Sonhava ser goleiro do time de hóquei no gelo.

Aos 14 anos, decidiu-se, e reinou absoluto no gol do Dínamo de Moscou e da seleção de seu pais. Medalha de Ouro nas Olímpiadas de 1956. Yashin defendeu a URSS em quatro Copa do Mundo (58, 62, 66,1970). Campeão da Euro Copa. Pela FIFA: Bola de Ouro e o melhor Goleiro do século XX.

150 pênaltis

 

Vestindo-se de preto, ganhou o apelido de Aranha e de Pantera, Negra. Famoso por antecipar-se. Jogar-se aos pés dos adversários. E pular dando soco na bola. Excelente em fechar o ângulo. Yashin pegou 150 pênaltis. Jogou 279 partidas sem levar gol.

 

Do treinamento de Yashin no Flamengo, para a Copa do Mundo de 1966, resultou a excursão do rubro negro à URSS. Estudantes da universidade Patrice Lumumba, organizamos grupos com bandeiras e batucada para o jogo em Moscou.

Mesmo com seu porte atlético e preparo físico Yashin morreu aos 61 anos, em 1990. Com diabetes amputou uma perna. Fumando e bebendo muito foi consumido por um câncer no estômago.

A alma russa

Há uma tradição secular de se traduzir a alma russa (Ruskaia duchá). Ou de se apelar para ela nos momentos ruins da nação. Yashin, era membro do Partido Comunista, Herói da União Soviética. Milhões não querem a volta do comunismo. Mas, ortodoxos, católicos, evangélicos, muçulmanos, gays, hetéros, os que não gostam de futebol, respeitam, admiram, e divulgam para as novas gerações os feitos do Yashin: alegria do povo, orgulho da nação russa. Isso é Ruskaia duchá!

Garrincha, alegria do povo

 

Ah! Se eu pudesse terminar esta história louvando o respeito e o carinho devotados àquele que foi chamado de: alegria do povo brasileiro. Garrincha e Yashin, da mesma geração de craques do futebol, alegria de seus povos, e lembrados de maneira tão diferente.

Procurei encontrar para entender a alma brasileira quando não quiseram dar o nome de Garrincha ao estádio da Copa em Brasília; quando vi a presidenta Dilma Rousseff com cara de paisagem inaugurar a maior roubalheira dentre todos os estádios da Copa do Mundo 2014; quando vi o que fizeram com o túmulo e os restos mortais de Garrincha no cemitério de Raiz da Serra, em Magé, Rio de Janeiro.

Encontrei a Ruskaia duchá e o American soul, mas, onde está a alma brasileira?

Como futebol não é só futebol busquei respostas em Nelson Rodrigues, cronista do futebol, e do caráter brasileiro. “É muito difícil elogiar o Brasil no Brasil. É muito difícil elogiar brasileiro entre brasileiros. Somos o povo que berra o insulto e sussurra o elogio”.

Yashin, alegria de um povo, que admira seus feitos e respeita a sua memória.

 

Garrincha, alegria de um povo, que despreza seus feitos e insulta a sua memória.

Trilha sonora:

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Jota Alves formou-se em Direito Internacional em Moscou. Fundou o jornal The Brasilians e criou o Dia do Brasil em Nova York. Exerceu funções de Secretário de Governo em Mato Grosso. Edita www.oreporternahistoria.com.br e com Adriana BH e Irene Poconé www.odiadobrasil.com